Faltou humildade ao novo Messias

Quarta, 18 de Setembro de 2019.

Faltou humildade ao novo Messias

Quando vejo e escuto, pelas resenhas e esquinas, tamanha exaltação a Jorge Jesus, constato o quanto o futebol, movido pela emoção, abastecido pela paixão, continua injusto com a razão. Todos nós que semanalmente respiramos por ele, elevados às nuvens quando no G4, ou por aparelhos quando no Z4, apostamos no cartola e assinamos o canal première, sabemos que um grande time, como o atual do Flamengo, não nasce da noite para o dia. Como um milagre de Jesus. Ele precisa de uma pré temporada, de testes no túnel de vento de uma Florida Cup, das dores musculares do primeiro turno dos estaduais, dos ajustes das peças que acabaram de desembarcar de Santos, até chegar montado e voando no semestre seguinte e decisivo.
E quem montou esta máquina, que acaba de cruzar em primeiro lugar na linha de chegada do primeiro turno, todos nós sabemos que foi Abel Braga. Trinta corridas depois, com dezenove vitórias, oito empates e apenas cinco vezes sem subir ao pódio, Abel não foi traído por Caim. Mas por Rodolfo Landim. E obrigado a renunciar ao cargo.
Este bólido, que Jorge Jesus pegou pronto para dirigir após a sexta rodada do brasileirão, havido vencido, com Pará, Rodolfo e Trauco, a Florida Cup. E conquistado a Taça Rio e o Campeonato Carioca com as arrancadas pelo lado direito de Rodinei de Almeida. E deixado esta poderosa Williams classificada para as oitavas de final da libertadores. Além de ter vencido o primeiro jogo das oitavas de final da Copa do Brasil.
Ao contrário de quem lhe inspirou seu sobrenome de batismo, Jorge Jesus não precisou realizar o Sermão da Montanha. Todas as preleções ao elenco foram dadas por Abel, no Ninho do Urubu, junto ao nascimento tático da equipe. Apenas esperou a volta dos filhos pródigos, que entraram nas suas laterais, e a hora de subir e ocupar o lugar mais alto da insensatez. Da falta de memória e respeito com que o futebol continua concedendo aos que nele trabalham. E não tem seus méritos justamente reconhecidos.
Nenhuma, eu disse nenhuma, resenha esportiva, debate, Jogo Aberto, Terceiro Tempo, concedeu a Abel Braga um só mérito pela atual conquista do Flamengo. Jogam sobre Jorge Jesus todos os louros alcançados. E este nem teve a humildade de pegar o microfone e dizer, mesmo no vestiário, não no acampamento, sem Moisés, mas com Arão ao seu lado (Lucas 23:24): “Pai, perdoa-lhes. Eles não sabem o que estão fazendo”.
Faltou humildade, em meio a eterna falta de reconhecimento e gratidão do mundo da bola, a este novo candidato de uma nação a Messias. Ou ele acha que um time entrosado, unido e motivado foi presente do papai do céu?

Por José Roberto Lopes Padilha

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