Família, internet e os desafios atuais

Sábado, 06 de Julho de 2019.

Família, internet e os desafios atuais

Quem é que nunca se indignou ao ler uma reportagem, ou receber imagem que ilustra pessoas em atitude de indiferença pelo próximo, em função do uso de redes sociais? Por exemplo a mãe que deixa o filho no chão do aeroporto enquanto está entretida com o celular, ou os membros da família que, reunida, troca a avó pelo smartphone. Em que pesem as circunstâncias dos registros (afinal um clique, embora icônico, nem sempre representa fielmente o contexto que integra), eles são chocantes, certo?
Nestas horas, via de regra, nos inflamamos e gritamos aos quatro ventos (virtualmente, claro) a nossa repulsa. E, na verborragia, não poupamos ninguém – sobretudo os ‘novos’ pais e a ‘fraca’ atual geração, arruinada pelas facilidades que não tivemos, especialmente as advindas da tecnologia. Nas análises abrasadas não falta quem teça comparações entre a infância do passado e do presente ao rememorar, com saudade, o quão era boa a época em que brincávamos na rua noite adentro, com os pais sentados em cadeiras em frente ao portão, assistindo-nos jogar bola de gude, pique-lata e pique-bandeira. As crianças de hoje? Uma pena, não saem da tela do computador, do tablet, do smartphone. Pobres crianças, um digita. O mundo está perdido, outro concorda.
Mas será assim, realmente? Vamos analisar direitinho? Para começar, temos de reconhecer o mal ‘provocado’ pela tecnologia. O excesso de tempo conectado faz com que o indivíduo se isole do convívio social, tornando latente a solidão e contribuindo para dar vazão a muitos de nossos problemas contemporâneos, dentre os quais a ansiedade, o medo e a insegurança que, por sua vez, podem desencadear doenças como depressão e síndrome do pânico. Mais: casais se agridem e se separam ensejados por posts no Facebook e no Instagram. O ódio aflora, acarretando brigas e ruptura doméstica, tendo como pretexto posições concorrentes no cenário político. Mentira e manipulação são armas frequentes. Através da web acontecem acidentes e homicídios.
No julgamento pessoal, entretanto, estará correto depositar a culpa destas ocorrências numa simples ferramenta, ao invés de assumir o protagonismo dos próprios atos? Porque a tecnologia e as mídias digitais são apenas instrumentos que nós, homens e mulheres imperfeitos, temos à disposição. Por intermédio deles, escancaramos nossas tendências. As timelines nada mais são do que páginas, inicialmente em branco, as quais preenchemos com o que temos impregnado nos pensamentos e emoções. Ceder à crueldade, à mentira, à acusação infundada e à frustração é permitir-se estar refém das falhas inerentes à própria personalidade.
É comum a internet estar associada à desagregação do vínculo familiar. E não resta dúvidas de que tem papel preponderante nos sismos caseiros, se assim a concebermos. Contudo, tal distopia pode ter procedência tanto nas perspectivas de distração online, como na predisposição a outras distrações viciantes, tais quais o álcool, o sexo e as drogas. Afinal, o pai já era distante quando, privando-se do convívio com os filhos e a esposa, optava por sair do trabalho direto para os braços da amante ou para a mesa de bar, nos anos 70. De igual modo, o filho já fugia de casa, nos anos 80, para obedecer aos desregramentos que lhe dominavam o espírito, deixando-se vencer pelas drogas e compulsão sexual. E o que dizer dos ciúmes e dos crimes passionais, certamente muito anteriores às interações da world wide web? Sem adentrar nas brumas da história, está fácil ver que, independente do agente ou da influência, nossa imperfeição é a verdadeira responsável pelas fraquezas e pelo arrastamento que conduzem à queda.
Por outro lado – e esta é a boa notícia – tais ferramentas, se usadas para o bem, podem mover montanhas no caminho das realizações pessoais. Pela internet, podemos nos conectar com afetos distantes, diminuindo a saudade; encurtar o abismo entre as classes, democratizando o acesso ao conhecimento; auxiliar o próximo ou motivá-lo, a partir de postagens solidárias; dar a conhecer as boas ações que são praticadas diariamente por anônimos, mas que, na falta de espaço e oportunidade, não são divulgadas em veículos como o rádio e a tevê. Pelo ciberespaço, podemos espalhar mensagens positivas e, inclusive, potencializar a comunicação social em sua função precípua, qual seja, aquela pautada na utilidade pública. As possibilidades são amplas, e nosso livre-arbítrio também. Cabe a cada um eleger o tipo de energia que deseja propagar, on ou off-line.
Da mesma maneira, temos a tarefa de decidir como orientar os jovens, que vivem sim, num momento diferente do que vivíamos há vinte ou trinta anos, e do qual a tecnologia faz parte. Não importa se você, como mãe ou pai, vai permitir ou proibir que seu filho de seis anos tenha um tablet. Mas saber que, seja qual for sua escolha, vai orientá-lo com sabedoria e equilíbrio no dia-a-dia, educando-o com afeto e incutindo-lhe, notadamente através do exemplo, os sentimentos de amor e respeito ao semelhante, isso é fundamental.

#BOMFIMDESEMANA

Por Daniele Barizon

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