Fé na vida e pé na estrada

Terça, 11 de Julho de 2017.

"Eu já estou com o pé nessa estrada, qualquer dia a gente se vê. Sei que nada será como antes, amanhã...



Milton Nascimento



 



Essa semana vi várias amigas postando fotos de viagens nas redes sociais. Querem que viajemos juntas ou apenas dizer..."olha como é lindo o lugar onde me encontro no mundo?



Martha Medeiros editou dois livros chamados Um lugar na janela, onde ela ressalta experiências de viagens memoráveis e momentos peculiares ao seu olhar de passagem por lugares como Londres, Índia, Estados Unidos, São Paulo, Rio de Janeiro, Uruguai, etc. É um deleite os relatos do livro para quem ainda não arredou o pé do cotidiano obrigatório seguindo a pauta do dia. Vale a pena sonhar com amigos ou parentes, ainda que seja por fotos ou mensagens curtas nas redes sociais. Eu sempre achei rodoviárias e aeroportos territórios neutros e sem fronteiras. Adoro ver pessoas transitarem em seus mundos e destinos particulares ou misteriosos nos halls de embarques. Uns lendo, outros fazendo selfies, tomando café, andando, usando notebooks, escrevendo, comendo, abraçando alguém, enxugando despedidas ou brincando com a felicidade efêmera ou alheia naquele adeusinho de quem quer ir junto na bagagem do coração. Impossível retornarmos os mesmos. Ainda que  sabendo que em algum lugar um pier de porto seguro chamado casa nos espera, o que vemos em algum lugar fica no presente. Em um tempo chamado mudança de estação emocional. Quem vai para perto ou longe sempre leva e traz algo que acrescenta o retorno à rotina. Trazemos paisagens transitórias de montanhas, ruas, avenidas, museus, teatros, exposições, galerias de arte, livrarias, praças, pessoas, palavras, restaurantes e até mesmo um amor impossível. Trazemos saudades e desejo de ir para estrada novamente com fé na vida lá fora. Construímos uma vida em nós que almeja sair para se misturar as descrições do turista ou do nativo. Conheço algumas pessoas que desejam imensamente viajar para o exterior, mas os recursos financeiros não permitem. Sei de outras tantas que poderiam dar a volta ao mundo, mas uma barreira pessoal as impedem. Curtem fotos dos amigos em postagens, mas não se seduzem pela mesma aventura. Fato é, que o tempo gira em torno dos nossos feitos, das realizações individuais, da moldagem de nossos desafios, das ondulações imperfeitas do caminho e do querer estar aqui ou lá, mas o importante é a realização da presença, mesmo que estejamos em lugares por onde milhões de pessoas pisam. As engrenagens políticas, sócio econômicas e culturais serão deveras distintas. Há o que se acrescentar.



Outro dia ouvi uma metáfora de um médico neurologista dizendo o seguinte: "O peixe que nada na baía de Guanabara pode ser o mesmo que nada na praia de Miami, mas a temperatura da água é diferente porque nada no mundo está do mesmo jeito ou na mesma frequência." Viajar é isso. Criar um campo de energia adequado às circunstâncias emotivas conforme o que se deseja encontrar. É um investimento que aquece o devir do caminhar constante do cotidiano enfadonho que enfrentamos semanalmente. Através das viagens do amigo podemos ir um pouquinho também recortando e traduzindo experiências nunca antes vividas.



Colocar o pé na estrada ou no ar é percorrer caminhos que podem sair dos trilhos da ignorância tornando o desconhecido menos assombroso e a visão mais encantada.



Boa viagem para quem vai e bom retorno para quem está do lado de lá.



 



 


Por Mônica Ribeiro

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