Fred precisa de nós

Terça, 26 de Fevereiro de 2019.

Fred precisa de nós


Sabe aquele dia em que você pensa que nada, absolutamente nada, poderia ser pior do que o ocorrido? Este foi o dia em que eu, atleta profissional de futebol, 15 anos na ativa (1º contrato aos 20 anos, Fluminense, últimos aos 35 anos, Bonsucesso) reuni meus contratos e procurei meu sindicato para cuidar da aposentadoria. Já sem meniscos, tornozelos comprometidos e telefone definitivamente emudecido de propostas dos clubes, lá fui eu para a FUGAP. Ao ser recebido pela secretária, ela me fuzilou: “Meu filho, estão faltando 20 anos!”. Respondi, sem amparo algum na constituição, que seria impossível atuar mais duas décadas. Pelo contrário, por atuar na profissão que é a paixão maior do nosso povo, deveríamos ser aposentados por tempo de orgulho de quem nos viu atuar. Antes seu desprezo pelo nosso apelo ufanista, protestei: “Mas ninguém nos preparou para mais vinte anos de um novo ofício?”
Quinze anos para jogador profissional de futebol, porque peladeiro joga até minutos antes do infarto, que joga sábado, domingo e atua na Copa Libertadores sem adicional noturno, fica concentrado duas vezes na semana longe da família e não desfruta de insalubridade mesmo com as chuteiras do Aírton passando rente à sua cabeça, é o tempo certo para aposentadoria para os que desfrutam de folga na segunda-feira. E todos os clubes, teatros e rodas gigantes estão fechados para manutenção. Pode até continuar trabalhando até os 80 anos, como o César Maia, pai do Rodrigo Maia, mas já seria recompensado com uma quantia sustentável pelos inestimáveis serviços prestados à pátria de chuteiras. E seguiria à frente com o da feira, aluguel e a comida das crianças garantidos.
Porém, com a reforma da previdência, que continua a aliviar as dívidas do Itaú, Bradesco, e eles, de sacanagem, ainda aumentam os juros dos cheques especiais para cima da gente, Fred, nosso ultimo grande herói tricolor, vai precisar continuar jogando até os 55 anos. Vai saltar menos nos cruzamentos, chegar atrasado nos rebotes dos goleiros, chutar a gol com uma força menor, mas que fique em campo apenas para bater pênaltis. Afinal, quem o substituiu, Henrique Dourado, bem mais novo do que ele, só faz isto em campo e continua empregado?
Seja bem vindo, Frederico, ao tricolor das Laranjeiras. Mesmo que você entre um dia no Maracanã de muletas, o país do futebol, cujos políticos vivem a gozar privilégios e impor sacrifícios a quem os elegeu, vai poder assistir pela televisão o que é um pai de família, sem chuteiras, continuar a pegar seu trem às 4 da manhã na Supervia para alcançar sua construção. Deveria estar em casa descansando, cuidando dos netos, aparando a grama do jardim, reconhecido seu suor e contribuição ao país, mas, infelizmente, é um brasileiro trabalhador comum. Que continua governado por aqueles que só marcam gol contra aos interesses da sua nação.

Por José Roberto Lopes Padilha

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