Guerra virtual e batalha política: das novas formas sórdidas das notícias falsas (fake news)

Sexta, 18 de Maio de 2018.

Nas eleições de 2006 para o Senado no Rio de Janeiro, Jandira Feghalli (PCdoB) tinha uma folgada liderança nas pesquisas sobre seus adversários (mais de 10% na semana final). Faltando poucos dias, uma avalanche de mensagens de celular (SMS, à época chamado de torpedo) foi remetida aos milhares para celulares das operadoras OI e TIM afirmando que a candidata não acreditava em Deus e que seria a favor do aborto.

Como podemos ver em reportagens da época, tratou-se de uma ação deliberada exclusivamente para influenciar as eleições. As pessoas que receberam a mensagem de celular (em 2006 não havia whatsapp) foram diretamente influenciadas por essa ação. Com isso, saiu-se vencedor ao senador pelo Rio de Janeiro em 2006 Francisco Dorneles (PP), hoje vice governador de Luiz Fernando Pezão (PMDB).

Boatos em torno do fim do programa bolsa família também ocupam constantemente as eleições. Além disso, um caso emblemático ocorreu em junho de 2013. Perto de 900.000 pessoas (ATENÇÃO! 5 VEZES A POPULAÇÃO DE JUIZ DE FORA) sacaram num único dia R$152 milhões do benefício do BOLSA FAMÍLIA depois de boatos de que programa seria suspenso ter atingido 12 estados. Pessoas que deixam recursos na conta e usam cartão de débito ou retiram aos poucos correram à Caixa Econômica Federal. Obviamente isso, causou um pânico e superlotação em diversas agências. A Polícia Federal tentou investigar origens dos boatos.

Esses dois exemplos mostram que a lógica covarde das notícias falsas não iniciou agora. Contudo, o avanço tecnológico com notícias e mensagens nas mãos via aparelho celular tornou ainda mais dramática essa questão.

Uma série de reportagens publicadas no Jornal O Globo justamente no dia 01-04-2018 (lembrando que 1 de abril é dia da mentira) revelaram a estrutura organizada de produzir mentira a favor de políticos e partidos para influenciar eleições. O título da primeira reportagem analisada é: “A Indústria da mentira: Como o mercado da trapaça virtual manipula curtidas, cria fake news e influencia eleições”. Seus autores são Marco Grillo e Thiago Prado. Os mecanismos mencionados:

a) Compra de seguidores e curtidas: isso permite transmitir imagem de popularidade e ao mesmo tempo expande alcance (atingem mais pessoas) das mensagens. A reportagem afirma que existem sites que oferecem curtidas no facebook e seguidores no Twitter por meio de robôs ou invasão no perfil pessoal de pessoas que passam a curtir determinada página sem saber. Isso custa R$240 no Twitter (para 10 mil seguidores) e R$110,00 para 2 mil curtidas no facebook. Uma popularidade fajuta e artificial;

b) Disparo de informações: serve para espalhar notícias negativas (ou falsamente positivas) para beneficiar determinada candidatura ou partido. Por R$ 3.000 conseguem atingir 20.000 mensagens de whatsapp. Caso recebamos uma notícia de um contato estranho, saibam que podemos ter sido vítima desse tipo de ação.

c) Ranqueamento de notícias: uma verdadeira fortuna (de R$ 20 mil a R$ 300.000) é gasta para que buscadores (Google e afins) tirem das primeiras páginas de busca menção à casos de corrupção envolvendo nome do sujeito. Segundo a reportagem, durante determinado tempo (1 ano ou 6 meses) somem para 5 ou 6 página da busca a menção negativa à determinado partido ou político. Pesquisas do Google mostram que dificilmente as pessoas procuram na 4 ou 5 página de busca por determinado assunto. É uma invenção terrível de sonegação de informação e falseamento intencional da realidade.

Em cada um dos mecanismos acima apontados, temos perigos reais e concretos para o livre exercício das eleições. A farsa de eleição livres e justas é desmentida por ações como as acima apontadas. Como afirmava Nelson Rodrigues: “dinheiro compra tudo. Até amor sincero”.


Por Marcelo Melo

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