Kardec

Terça, 04 de Junho de 2019.

Kardec

Nossa mãe nos deixou, como legado, um rastro de perdão e misericórdia que, me lembro, só não poupava duas criaturas que conheceu em vida: João Baptista Pinheiro, meu treinador, e o Padre Barroso, da Mariz de São Sebastião. O primeiro nos colocou em campo, no Maracanã, pelo Torneio Rio São Paulo, aos 43 minutos do segundo tempo quando o Atlético Mineiro vencia o Fluminense por 3x0. Caia uma tempestade danada e mal toquei na bola. Mas foi o suficiente para voltar tossindo para Três Rios no banco detrás e pegando uma infecção na garganta que ela jamais esqueceu. “Safado!”. Este foi o mais feio palavrão que a escutei desferir contra alguém.

Quanto ao segundo, quando do matrimônio com meu pai, de família católica, ao procurá-lo na paróquia para oficializar a união, Padre Barroso disse como um baixo clero: “Não casamos aqui neta de macumbeira!”. Nossa bisavó, a tal macumbeira, era uma mulher caridosa. Que realizava partos gratuitamente e saia com minha mãe, ainda menina, a percorrer os inúmeros cabarés de nossa cidade distribuindo conselhos e preservativos. Poucas mulheres foram como Rita Cerqueira, a Mãe Ritinha. E ela nunca o perdoou: “Safado!”

Crescemos em meio ao culto e a missa, brincando na faixa de gaza de nossa pracinha a fim de não aguçar conflitos. Meus pais se casaram em Areal, então distrito de Três Rios, e João Batista Pinheiro deve estar tentando explicar a Dona Janet o impensável, no plano superior, ao acreditar que o seu filho viraria aquela partida em três minutos. De tão forte naquele ano, o Atlético MG foi campeão brasileiro.

Quanto ao padre Barroso, trabalhou ontem no filme sobre Alan Kardec na pele de um vilão. Representava, no século XIX, uma sagrada instituição que se prestava a queimar livros e pessoas que seguissem uma cartilha diferente da sua.

Uma pena que o filme acabou sem que a humanidade conhecesse a luz elétrica. E saísse das trevas. Que Alan Kardec tivesse a oportunidade de alcançar os nossos dias e conhecesse o Papa Francisco. O mundo, certamente, seria outro, iluminado por dentro e por fora. E, quem sabe, eu e meus irmão pudéssemos ter tido a oportunidade de optar por uma religião.

Tenho certeza que, juntos, Kardec e Francisco, no tempo e no espaço da razão, do amor e da compreensão, perdoariam todos aqueles que ainda pensam, sobre seitas, doutrinas e dogmas diferentes, serem os únicos e absolutos porta-vozes de Deus.

Por José Roberto Lopes Padilha

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