Livro da Sabedoria: a ação divina em defesa da vida!

Quarta, 19 de Setembro de 2018.

Estamos em pleno Mês da Bíblia, celebrado sempre em setembro desde 1971, que neste ano tem como tema “A Sabedoria em defesa da Vida”. Já é o terceiro ano que, de acordo com asdiretrizes da Igreja na América Latina, contidas no Documento de Aparecida, estamos aprofundando a segunda parte da proposta pastoral: “Ser Discípulos Missionários de Jesus Cristo, para que nele nossos povos tenham vida”. O tema central durante estes quatro anos é sempre o mesmo: a defesa da vida!O lema é: “A Sabedoria é um espírito amigo do ser humano” (Sb 1,6). Ou seja, a Sabedoria é uma expressão da amizade de Deus por nós, seres humanos.
Estamos, pois, em nossos Círculos Bíblicos e em nossas CEBs-Comunidades Eclesiais de Base,conhecendo e refletindo a primeira parte do Livro da Sabedoria (Sb 1,1-6,21). Segundo o arcebispo de Curitiba e presidente da Comissão para a Animação Bíblico-Catequética da CNBB, dom José Antônio Peruzzo, é muito importante estudá-lo no contexto atual, pois, “Teremos eleições neste ano de 2018. É possível antever um quadro de fortes tensões. A situação social e política do nosso Brasil, sabemos, é de muitas inquietações. E o Livro da Sabedoria nos oferecerá muitas inspirações para temas como justiça, sentido da vida e o bem comum. É preciso que compreendamos que quem não ama a sabedoria, buscará argumentos até para a violência”.
Entre as muitas reflexões já publicadas destacamos a colaboração do Frei Gilvander Luiz Moreira, do CEBI-Centro Ecumênico de Estudos Bíblicos de Belo Horizonte, a partir do versículo“Amem a Justiça, vocês que governam a terra!” (Sb 1,1a). Ele recorda que o “Livro da Sabedoria nos mostra que governo sábio e justo é o que promove o bem comum (Sb 1,1-7.14)”.O Livro da Sabedoria poderia ser chamado Livro da Justiça. Nos cinco primeiros capítulos tece comparação entre a vida das pessoas justas e das injustas durante a vida terrena e após a morte. Nos capítulos 6 a 9, há reflexão sobre a origem e a natureza da sabedoria e o caminho para adquiri-la. Assim, já em Sabedoria 1,1-15, são tecidas, por exemplo, reflexões no sentido de demonstrar que o cume da sabedoria é a vivência e prática da justiça; não é apenas fazer solidariedade ou demonstrar amor ingênuo ao próximo. Sabedoria, uma justiça que gera bem comum para todos.
Segundo o biblista Luís Afonso Schokel, citado por Frei Gilvander, “o livro da Sabedoria é um tratado de teologia política. Tal conclusão deriva, entre vários motivos, do fato de iniciar-se o livro com uma exortação a quem tem a missão de governar, diríamos hoje, os chefes do Estado – poderes Judiciário, Executivo e Legislativo: Amem a justiça, vocês que governam a terra… (Sb 1,1a). De saída, critica os legalistas e os que friamente e farisaicamente aplicam as leis como se pudessem ser neutros. ‘Se você é neutro em situações de injustiça, você escolhe o lado do opressor’, profetiza o bispo Desmond Tutu. Sem amor aos injustiçados e oprimidos e sem compromisso com a luta pelos seus direitos, o exercício do poder de julgar se torna fonte de opressão e de exploração”.
“O Espírito Santo, que educa, foge da fraude, afasta-se dos pensamentos insensatos, e é expulso quando sobrevém a injustiça” (Sb 1,5). Onde acontece fraude – opressão e corrupção -, portanto, afugenta-se um espírito vivificador, pois um espírito diabólico, que desune e cria intriga, se instaura. Onde domina a injustiça, um espírito destrutivo domina e escorraça um espírito construtivo, conclui o autor.“Haverá investigação sobre os projetos do injusto, e o rumor das palavras dele chegará até o Senhor, e seus crimes ficarão comprovados” (Sb 1,9). O Livro da Sabedoria anima a esperança do povo injustiçado ao afirmar que os injustos não ficarão impunes; os crimes dos injustos serão investigados e comprovados. Nenhuma luta por justiça é em vão. Essa esperança se constrói na luta comunitária, ao tornar presentes as lutas libertárias do passado, cultivando a fé e os feitos “dos nossos pais” (Sb 9,1).
“Deus não fez a morte, nem se alegra com a perdição dos seres vivos. Ele criou tudo para a existência, e as criaturas do mundo são sadias” (Sb 1,13-14a). O livro da Sabedoria, portanto, não apenas alimenta a fé em Deus, como se houvesse um Deus abstrato, mas anima a fé em um Deus que quer “vida em abundância” (João 10,10), para todos os seres vivos. “A maior sabedoria é praticar a justiça que só pode ser justiça verdadeira, se gerar bem comum para todos. Todo saber que maquina e engendra exploração do outro não é sabedoria, é injustiça. O livro da Sabedoria é, poisum libelo contra os injustos e exploradores que vivem no luxo, com vida cômoda, esnobando riqueza e privilégios e, na prática, cuspindo no rosto dos empobrecidos”, conclui Frei Gilvander.Só pode ser sabedoria uma justiça que gera bem comum para todos.
Medoro, irmão menor-padre pecador

Por Padre Medoro

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