Magali

Sexta, 02 de Agosto de 2019.

Magali

Algumas cenas do nosso cotidiano são, às vezes, continuamente reprisadas diante dos nossos olhos e, mesmo carregando uma forte carga de comoção, somos incapazes de reagir. Exatamente por se tornarem comuns, repetitivas e, por comodidade, acreditarmos que pertencem à paisagem. Como a imagem daquela senhora que passa todo santo dia pela gente cada vez mais encurvada, trôpega, sem resíduos de higiene, sempre em movimento contínuo pela ponte que nos liga à margem direita do Rio Paraíba do Sul levando junto a nossa indiferença. Seguida de perto por um número maior de cães que parecem percebê-la, e compreendê-la, mais que todos nós. Os ditos humanos.

O nome dela é Magali. Como o Coca-Cola da minha infância, que passava xingando a todos por receber apenas pedradas e gracejos de todos os adolescentes sem que um só adulto lhe oferecesse ajuda, Magali é, hoje, o espelho maior e mais latente do quanto uma sociedade se fechou aos conceitos mais sagrados com que foi concebida.

Insegura e acuada, ou subiu o nível das suas muralhas para se proteger ou evitar seus semelhantes, ou espalhou cães ferozes, guaritas e alarmes para se enclausurar ao lado dos seus cofres. Que passaram a proteger novos valores: maços de insensatez empilhados pela intolerância.

Como um corpo de cútis diferente da maioria que foi ao chão e lá permaneceu no calçadão, ou sob os viadutos, sob o olhar nada tenho com isso de uma multidão que foge de si mesmo, Magali insiste em cruzar nossos caminhos carregando diariamente a bandeira, suja e encardida, da compaixão perdida. Da omissão repetitiva com que passamos a tratar nossos distantes, embora a missa das 19h00, na Matriz de São Sebastião, o cult o das 20h00, do Grupo Espírita Fé e Esperança, e as orações de todos os templos espalhados pela Vila Isabel continuem a nos avisar que são próximos.

Magali definha diante dos nossos olhos a cada dia sem que um braço ou entidade lhe ofereça um banho, um almoço, um par de tênis, pelo menos, a diminuir o impacto das horas de caminhadas com o peso recolhido pelas ruas. Sua coluna, prestes a partir, seus joelhos, quase a sucumbir, parecem estar chegando aos limites da incompreensão. Da zona limítrofe entre a convocação dos céus e o entendimento dos chamados filhos de Deus.

Magali, ontem passando por mim e pela minha omissão, lembrou-me das marcantes imagens de Cristo carregando sua cruz pelas ruelas de Jerusalém. Transportadas para a tela, não passamos dos mesmos figurantes interpretando discípulos acuados, impassíveis ditos seguidores, que nem um copo d'água somos capazes de lhe oferecer. Com um agravante: pelas nossas ruas não há uma só legião de Pilatos a postos com ódios, chicotes e espadas afiadas a impedir que estendamos as mãos para uma pobre e indefesa cidadã.

A indiferença, talvez o pior dos legados da humanidade, desta vez crucifica nossa sensibilidade e eterniza o holocausto de uma raça simbolizado com sacos de lixo e detritos fincados às costas de uma frágil mulher.
Obs. A primeira crônica, do primeiro livro, a gente nunca esquece.

Por José Roberto Lopes Padilha

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