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Minha carne para a vida do mundo!

Quarta, 10 de Junho de 2020.

  Minha carne para a vida do mundo! A Solenidade de Corpus Christi é a celebração da nossa fé eucarística, inspirada nas palavras de Jesus: O pão que eu darei é a minha carne, doada para vida do mundo (Jo 6,44). Assim, esta fé implica, não só na adoração, mas no amor-serviço à vida dos mais pobres, como nos ensinou o mesmo Senhor Jesus, na hora da instituição da Eucaristia, lavando os pés dos discípulos: Dei-vos o exemplo para que façais o mesmo (Jo 13,15).A mão que toca no Corpo de Cristo deve também tocar no corpo do irmão. Parabenizo assim, à querida Comunidade Trirriense e de tantos outros irmãos, de longe e de perto, que vem possibilitando a nossa Paróquia de São José Operário oferecer quase duas mil cestas básicas às famílias empobrecidas, nesse tempo da pandemia do Novo Corona Vírus!
O cristianismo foi muitas vezes compreendido como uma religião do “espírito” contra a “carne”, uma religião do desprezo do corpo e inimiga de tudo o que se refere à dimensão corporal. Se isso é verdade, vai totalmente contra à primeira inspiração de Jesus e da Igreja, que proclamaram e continuam proclamando uma religião do “corpo”, ou seja, do Deus Encarnado na história (na carne) dos homens e mulheres. Celebrar “Corpus Christi” é “cristificar” nossos corpos e dos nossos irmãos, como nos ajuda a refletir o jesuíta Pe Adroaldo Palaoro: alimentar-nos do Corpo de Cristo é voltar ao mais puro, ao mais simples e mais autêntico de seu Evangelho; interiorizar suas atitudes mais básicas e essenciais; acender em nós o impulso de viver como Ele; despertar nossa consciência de discípulos(as) e seguidores(as) para fazer d’Ele o centro de nossa vida.
Tradicionalmente, a festa de “Corpus Christi” acontece em meio a grandes pompas e suntuosas procissões. Belos tapetes são confeccionados nas ruas para que o cortejo, carregando o “Corpo de Cristo”, passe por ali. Este ano, por causa da situação pandêmica que estamos vivendo, as manifestações externas não vão ocorrer como de costume. Talvez seria uma ocasião privilegiada para repensar e re-descobrir o verdadeiro sentido deste dia: fazer a experiência da “procissão interna”, deixando o “Corpo de Cristo” circular por nossos corpos, para que estes fiquem mais “cristificados” e se ponham ao serviço de tantos e tantos corpos feridos pela fome.
Todas as nossas demonstrações de veneração e respeito para com as “espécies consagradas do pão”, estão muito bem. Mas ajoelhar-nos diante do Santíssimo e continuar menosprezando ou ignorando o corpo dosirmãos e irmãs, sobretudo dos mais sofredores e excluídos, é um escárnio. (...) A última coisa que poderia ter ocorrido a Jesus era pedir que os demais seres humanos se pusessem de joelhos diante d’Ele. Ele, sim, se ajoelhou diante de seus discípulos para lhes lavar os pés; e, ao terminar essa tarefa de escravos, lhes disse: vós me chamais de Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque sou. Se eu, o Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros (Jo 13,13). Essa lição parece que não despertou tanto impacto em nós. É mais cômodo transformar Jesus em “objeto de adoração” que imitá-lo no serviço e na disponibilidade para com todas as pessoas. É uma ofensa prostrar-se diante do Corpo Eucarístico e distanciar-se de tantos corpos violentados que gritam: “eu quero respirar”.
O problema é que, com frequência, transformamos a Eucaristia num rito cultual, tornando-se uma pesada obrigação dominical que, se pudéssemos, tiraríamos de cima de nossos ombros. Ela acabou se convertendo numa cerimônia rotineira, carente de convicção e compromisso, um ritual que tranquiliza as consciências, mas não modifica as atitudes. E, às vezes, se utiliza como ato de ostentação e pompa solene, que fomenta a adoração e a devoção, mas não transforma nem a Igreja, nem a sociedade.
A Eucaristia foi, para as primeiras comunidades cristãs, o ato mais subversivo imaginável. Os cristãos que a celebravam se sentiam comprometidos a viver o que o sacramento significava, conscientes de que recordavam o que Jesus tinha sido e comprometendo-se a viver como Ele viveu.É preciso sacudir nossa rotina e mediocridade. Não podemos comungar com Cristo na intimidade de nosso coração sem comungar com os irmãos que sofrem. Não podemos compartilhar o pão eucarístico ignorando a fome de milhões de seres humanos, privados de pão e de justiça. É uma ofensa dar-nos a paz uns aos outros, sendo canais propagadores de ódio, de preconceito e intolerância. É um engano manifestar que estamos em comunhão junto à mesa quando, na realidade, somos mediadores da “cultura da indiferença”.
Está bem que passem procissões com o Pão Eucarístico por nossas ruas, com toda solenidade e pompa, ou o passeio eucarístico previsto para nossas três paróquias nesse ano pandêmico. Mas, que pensará Jesus ao passar diante das casas onde hoje falta o pão? Que pensará Jesus ao passar diante de crianças que tem fome? Que pensará Jesus ao passar diante de homens e mulheres que o acompanham com o estômago vazio, sendo Ele mesmo o “verdadeiro pão”? Que pensará Jesus ao ser levado nos “andores” e carros alegóricos por pessoas que não conhecem a fome, enquanto à margem aplaudem os famintos?...
Medoro, irmão menor-padre pecador

Por Padre Medoro