MÚSICA E LITERATURA

Sábado, 20 de Outubro de 2018.

Sob o ponto de vista da comunicação, música e literatura são duas artes que se irmanam; unem-se na categoria das expressões culturais transmitidas pela audição. Sendo a voz humana o instrumento musical mais primitivo, a música surge no canto, onde os textos são declamados melodiosamente.
Na Grécia antiga, a essência do teatro clássico consistia em articular o texto seguindo uma idéia melódica. A priori, esse texto era recitado sem acompanhamento instrumental; porém, eventualmente, somava-se ao texto e à ação teatral, melodias de flautas, cornetas, liras e cítaras.
No início da era cristã, a música de maior relevância era o “Canto Gregoriano”, uma melodia simples, com diversas variações, cantada em uníssono (com todas as vozes cantando a mesma melodia). Considerando-a artisticamente, a liturgia é uma obra literária, constituída de textos bíblicos acrescidos de comentários e reflexões. Assim, pode-se considerar o Canto Gregoriano como uma arte indissociável à literatura.
Todavia, a música não permaneceu restrita ao modelo oficial da Igreja. A partir do Sec. XIII, por influência dos trovadores, temáticas profanas permearam a arte musical, somando-se a esta, novos elementos e recursos estilísticos a fim de ornamentar e dar mais expressividade às melodias.
Foi no Barroco (Sec. XVIII) que surgiria a forma musical mais intimamente ligada à literatura: a Ópera! A ópera é, propriamente, um texto musicado e teatralmente representado, conjugando o canto ao acompanhamento orquestral. A base de toda criação operística é o “libreto”, ou seja, um texto poético a ser cantado ou recitado. Denomina-se “libretista” aquele que escreve o libreto. O papel do libretista equivale, modernamente, ao do roteirista cinematográfico, que faz a adaptação de um romance para a tela, criando diálogos e a movimentação cênica. Diversas obras foram transcritas para a ópera, como “Otello” e “Romeu e Julieta”, de Shakespeare (1564-1616); e “Fausto”, de Goethe (1749-1832). Muitos textos serviram de base para óperas distintas.
Outro gênero musical intimamente ligado à literatura, mais precisamente à poesia, é a “Canção”; uma declamação melódica com acompanhamento instrumental em que o solista e o acompanhante desempenham papéis mutuamente interdependentes na comunicação do conteúdo emocional da poesia. Este estilo ganhou muita força na Alemanha, no séc. XIX, e passou a reinar absoluto em todo o mundo no séc. XX.
Bem mais sutil é a relação entre a música e a literatura encontrada no gênero de composição denominado “Poema Sinfônico”. Este é um gênero de música sinfônica, estritamente instrumental, onde o compositor procura expressar por meio de sons, o conteúdo de uma obra literária, de uma cena pitoresca, ou de uma idéia filosófica. A narrativa é construída a partir de uma paisagem sonora criada pelo compositor. Um dos poemas sinfônicos mais famosos e que merece destaque é a “Sinfonia Alpina”, de Richard Strauss (1864-1949), que descreve as paisagens de uma excursão nos Alpes da Alemanha.
A música, por sua própria estrutura, consiste em uma sucessão de sons que se organizam em “frases musicais”, estabelecendo um discurso. É como se a idéia melódica possuísse uma estrutura sintática, com sujeito, predicado, complementos e adjuntos. Ao compor, o músico elabora um “texto musical” em que expressa suas idéias do mesmo modo que na escrita literária. Assim, a obra como um todo, há de ter uma introdução, um desenvolvimento de idéias e uma conclusão.
Vê-se que há muita afinidade entre música e literatura, sendo esta fonte inspiradora de grande parte da criação musical.

Por Vinícius Pereira

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