Música, Política e Sociedade (Parte I)

Sábado, 29 de Setembro de 2018.

No momento de crise aguda, em um país dividido por opiniões e crenças políticas, é oportuna uma discussão sobre a influência da música e das artes no individuo e na sociedade.
A música, como linguagem, é um importante elemento comunicante. Sua universalidade permite ultrapassar fronteiras, permeando múltiplas comunidades. Como patrimônio social, a música carrega em si elementos históricos, culturais, religiosos e políticos daqueles que a produz.
Desde a antiguidade, preocupou-se em estudar a relação entre música, indivíduo e sociedade. Na Grécia Antiga, a música era considerada a mais relevante das artes. Platão apontava que a música deveria ser um dos principais interesses na organização política do Estado. Asseverava que suas regras deveriam ser regulamentadas pelo Estado, o qual deveria responsabilizar-se pela educação musical de qualquer cidadão livre, buscando, assim, direcionar a conduta moral, social e política de cada indivíduo, para que este cumprisse adequadamente seu papel junto ao Estado. A música deveria exaltar as boas qualidades no indivíduo, suscitando ordem, dignidade e equilíbrio.
A cultura ocidental enraizou-se nos princípios das civilizações antigas. Delas, o Império Romano absorveu grande parte da tradição musical. Com o declínio de Roma, muito dessa cultura se perdeu.
A queda do Império Romano estabelece uma nova ordem onde a música cristã era aquela com maior influência sobre a sociedade. Reconhecendo sua importância, o Papa Gregório “Magno”, no século VI, empreendeu uma reforma na prática musical a fim de garantir unidade, influência e poder da Igreja Católica. Nascia o Canto Gregoriano.
Sucedem-se os séculos, durante os quais a música evolui timidamente. Nos anos 1500, com a Renascença e a Reforma Protestante, o mundo testemunha uma grande revolução: quebram-se antigos paradigmas e estabelece-se uma nova ordem social; a Igreja perde o monopólio do conhecimento; as ciências e as artes desenvolvem-se significativamente.
O “Século das Luzes” conduz a humanidade a uma nova era. Resgata-se boa parte da cultura da antiguidade. Uma nova música reflete esta evolução. A consolidação dos conceitos teóricos, a construção e criação de novos instrumentos e a evolução das técnicas em compor e executar música abrem caminho para uma infinidade de novas composições. Na corte de Florença, diversos eruditos propuseram o resgate do antigo “teatro grego” (onde a representação, o texto e a música convergiam). Deste trabalho nasceu a ópera!
Neste momento, o Ocidente conhecia, em termos gerais, três vertentes da arte musical: a música sacra, a secular e a folclórica. As duas primeiras obedeciam aos conceitos e teorias formais; a segunda, comum entre as comunidades não urbanas da Europa, estruturava-se conforme as práticas correntes das localidades onde eram criadas. A música formal européia (que, a posteriori, seria designada “música erudita”) sobreviveu com maior vigor, estabelecendo-se como referência para a cultura musical ocidental.
(Segue na Segunda Parte!)

Por Vinícius Pereira

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