Música, Política e Sociedade (Parte II)

Sábado, 06 de Outubro de 2018.

Em seqüência à coluna anterior, versaremos sobre a função do pensamento político, social e artístico na era moderna.
No século XVIII, o Iluminismo influenciaria significativamente a música e as artes. A revolução mais expressiva se deu, sem dúvidas, na ópera. A arte lírica ganharia fluidez e adotaria temas sociais. Mozart é um dos exemplos mais notáveis. Em suas óperas “Le Nozze di Fgaro”, “Don Giovanni” e “Così fan tutti”, abordou-se a corrupção da nobreza, a luta de classes, crítica aos costumes, adultério, etc.
A ascensão da burguesia, com suas crescentes demandas, culminaria na Revolução Francesa. O novo pensamento considera a educação como um direito universal do cidadão e, em função desta filosofia, cria-se, em 1795, o Conservatório de Paris, a primeira escola pública de música do mundo moderno, que se tornará modelo para diversas outras instituições no Ocidente.
Após as Guerras Napoleônicas, surgiram diversos movimentos políticos com fortes sentimentos nacionalistas e patrióticos. Neste processo de construção de uma identidade nacional através da música, diversos compositores buscaram, mas melodias e ritmos folclóricos de seu país, matéria-prima para a produção de sua arte. Os movimentos nacionalistas mais expressivos surgiram na Alemanha e na Itália, após os movimentos de unificação dessas nações.
Na Alemanha, o célebre compositor de óperas Richard Wagner (1813-1883), explorou ao máximo a cultura de seu país. Sua música narra um passado heróico, revestido de histórias medievais e mitos germânicos. A adoração da figura do compositor chegou ao extremo nos anos 1930, quando Hitler proclama a música de Wagner como a expressão máxima do espírito alemão.
As óperas do compositor italiano Giuseppe Verdi (1813-1901) também refletem o espírito nacionalista da época. Suas óperas alcançaram enorme popularidade, tornando-se símbolos da Itália unificada. Durante o processo de unificação, os entusiastas da monarquia proclamavam “VIVA VERDI”, valendo-se do sobrenome do compositor como anagrama de “Vittorio Emanuele, Ré D’Italia” (Vítor Emanuel, rei da Itália), saudando o primeiro soberano a governar o país.
Um dos mais importantes precursores da música nacional brasileira foi Carlos Gomes (1836-1896) que, em 1870, levou à cena a ópera “Il Guarany”, de temática indigenista. Em 1889, retoma temática nacional em “Lo Schiavo”, ópera de caráter abolicionista. Alberto Nepomuceno (1864-1920) foi outro compositor brasileiro em advogar pela cultura nacional, sendo pioneiro na defesa do canto em língua portuguesa. O maior representante da música nacional brasileira foi Heitor Villa-Lobos (1887-1959). Grande entusiasta de nosso folclore, realizou diversas pesquisas, fundindo-o com a música de origem européia. Foi o maior defensor do ensino musical no Brasil. Utilizou seu prestígio junto ao presidente Getúlio Vargas a fim de convencê-lo a implantar um ambicioso projeto de educação musical: o Canto Orfeônico.
No século XX, a arte e a política convergiram, tornando-se, eventualmente, indissociáveis. A diversidade de pensamentos, regimes e governos influenciaram sobremaneira a música e esta passou a retratar, com certa fidelidade, a sociedade que a produz e a consome.

Por Vinícius Pereira

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