Não se esqueçam de mim

Terça, 11 de Junho de 2019.

Não se esqueçam de mim

Não sou uma outra testemunha desta história que domina o noticiário. Sou fruto dela e estou completando um mês de vida. Nasci em meio a uma grande paixão. Meus pais se conheceram pelas redes sociais e marcaram um encontro no Sofitel, de Paris. E se divertiram muito. Na plenitude dos seus hormônios, no auge do cio, foi mole para um espermatozóide forte daqueles romper camisinhas, um óvulo tanto quanto e me trazer ao mundo. Se for até o final da gestação, o que passei a ter dúvidas, serei batizado como cidadão brasileiro. Isto porque no segundo encontro eles, os meus pais, resolveram brigar perante o mundo. E criaram uma polêmica danada. Pior que isto: esqueceram de mim aqui nesta placenta.
Ontem, ouvi na delegacia em que minha mãe foi depor, uma expressão que pode roubar minhas chances de virar gente, de ser mais que um índice: estupro. Embora a Igreja o condene, o código penal brasileiro permite que se realize o aborto em caso de uma relação não consentida. E eu sei que vim de uma totalmente consentida. Teve troca de beijos, afagos e carícias concedidas. Fui gerado em uma noite de prazer e tanto. Há testemunhas.
Estupro foi uma maneira que os advogados da minha mãe encontraram para protege-la do meu pai por este ter faltado ao segundo encontro. Como maior jogador do seu país e terceiro melhor do mundo, sei da fila que se forma nos portões do seu clube com candidatas a me conceder um outro irmão. Porém, agora que já estou virando gente, eles não podem me abandonar, afirmar que teve violência naquele encontro. E se esquecerem de mim.
Apesar de saber que vou nascer em um país que não cuida da sua taxa de natalidade, pelo contrário, que seu governo incentiva a de mortalidade ao liberar armas e conceder cargos e comendas às milícias que vivem a desaparecer com as Marielles, quero ter o direito a nascer, jogar bola, estudar no lugar de viver de baladas e me tornar um ídolo mais consciente e cuidadoso do que o meu pai.
Minha missão a partir de agora, mesmo sendo apenas uma semente, é provar que não sou fruto de um abuso, mas de um prazer consentido. E para mim não será uma questão a ser decidida em tribunais, de indenização ou pensões. Será de vida ou morte.

obs. qualquer semelhança com jogadores famosos e modelos à caça da fama não terá sido mera coincidência.

Por José Roberto Lopes Padilha

Crédito da Foto: Reprodução

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