Notícias falsas, fake news e a luta política: detalhes sórdidos

Sexta, 27 de Abril de 2018.

A expressão “NOTÍCIAS FALSAS” (e sua versão em inglês FAKE NEWS) está na ordem do dia dos debates políticos. Sem ser exatamente uma novidade, destacam-se pelo imenso alcance que possuem por meios de redes sociais e outras tecnologias de comunicação. Recebem esse nome por serem intencionalmente falsas, mentirosas e caluniadoras. Existem apenas para ludibriar, enganar e provocar confusão na opinião pública acerca de uma série de eventos. Muitas vezes- como veremos nas próximas colunas- são frutas de ações de robôs e máquinas virtuais. Ou seja, apesar da foto e nome do perfil no Whatsapp, facebook ou twitter trata-se um perfil falso. Não existe aquela pessoa que compartilha aquela notícia.
Horas depois do covarde assassinato da Vereadora do PSOL-RJ Marielle Franco em 14 de março de 2018 fomos bombardeados por notícias de que a vereadora teria ligação com crime organizado (tráfico de drogas). Milhares de compartilhamentos no facebook, whatsapp e Twitter cumpriram a sórdida tarefa de manchar a imagem de Marielle Franco. A despeito de imediatamente respondido, além da criação de um grupo de advogados voluntários para processar caluniadores, o estrago já estava feito. Em muitos grupos de whatsapp era compartilhada a notícia falsa. Até mesmo uma desembargadora do Rio de Janeiro atuou como caluniadora de Marielle Franco, a partir de boatos que surgiram no whatsapp.
Passada a comoção inicial, iniciou-se uma investigação das origens desses boatos. O Jornal O Globo iniciou uma excelente série de reportagens com intenção de rastrear o caminho dessas mensagens caluniadoras sobre Marielle Franco. A primeira matéria teve RASTROS DO ÓDIO e foi escrita por Gabriel Cariello e Marcos Grillo. O link é: https://oglobo.globo.com/rio/como-ganhou-corpo-onda-de-fake-news-sobre-marielle-franco-22518202.
Marielle Franco foi assassinada às 21:30 do dia 14-03-2018, uma quarta feira. As primeiras menções de que Mariele Franco teria sido namorada do traficante Marcinho VP (com uma foto ridiculamente falsa) e que seria ligada ao Comando Vermelho foi postada no Twitter na sexta feira às 12:28. As 18:23 a página de Luciano Ayan publicou as mesmas notícias no facebook. A fonte era a página chamada CETICISMO POLÍTICO. As 22:23 a página do Movimento Brasil Livre (MBL) postou a mesma notícia no Facebook. Isso gerou uma imensa replicação dessa notícia falsa. Em 5 dias essa notícia teve 361.005 compartilhamentos no Facebook e 11.000 no Twitter, além de ter sido visualizada 1.090.658 vezes no Twitter. O MBL apagou a mensagem no facebook, mas antes ela já havia sido compartilhada direto de seu site por 33 mil perfis.
O site CETICISMO POLÍTICO pertence a Luciano Henrique Ayan. Inicialmente, não havia nenhuma foto ou menção a quem seria essa pessoa. Analisando os perfis, notou-se que há uma afinidade gigantesca de Ayan com o MBL. Muitas interações, compartilhamento de mesmo conteúdo- as vezes com intervalo mínimo de tempo. A reportagem mostra que esse domínio (ceticismopolitico.org) pertence a Luciano Ayan desde novembro de 2017 e está registrado por uma empresa na Dinamarca (norte da Europa). Isso permite manter oculto o real dono do site. Antes Ayan possuía o domínio ceticismopolítico.com. este estava registrado no Canadá. Assim, não se sabia quem era o titular da conta. Tanto a página ceticismo político (105 mil seguidores) quanto o perfil pessoal de Ayan (2,4 mil seguidores) são bem populares no facebook. Isso permite ter um alcance considerável de cada postagem.
A chamada viralização de notícias é parte central da luta política. Veremos nas próximas colunas que não se tratam somente de incautos que acreditam nas primeiras coisas que lêem. Em muitos casos, é fruto da ação de máquinas e robôs virtuais que conseguem replicar em larga escala determinadas notícias a partir do pagamento a empresas específicas. A batalha pela opinião pública é constante e diária.

Marcelo Paula de Melo é doutor em Serviço Social (UFRJ) e professor da EEFD-UFRJ.

Por Marcelo Melo

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