O abismo que separa Brasília dos diversos “Brasis”

Sábado, 11 de Agosto de 2018.

O documentário exibido pela Globo News intitulado “BR-101: uma rodovia de muitos ‘Brasis’, faz uma reflexão sobre as transformações sociais causadas pela rodovia e os desafios enfrentados pelos brasileiros que vivem em suas margens. As histórias foram registradas ao longo da BR, uma das maiores do país, e que vai do Rio Grande do Sul e ao Rio Grande do Norte. Trouxe, numa riqueza de detalhes exibidos em imagens e depoimentos de pessoas que vivem nas cidades cortadas pela rodovia, trajetórias de professores da rede pública de ensino que ministram suas aulas em único espaço, improvisando estratégias concomitantes para alunos de várias séries. Mostrando escolas sem mínima estrutura para atividades pedagógicas, porém, o que se dispõe para retirar crianças do analfabetismo predominante nos mais velhos das suas famílias.
Alunos com aspecto desnutrido, agravado pela falta de merenda escolar, talvez a única refeição do dia, tendo em vista o estado de extrema pobreza imposto aos seus pais, marginalizados e condenados à falta de oportunidades de trabalho e renda dignos. Pais sem perspectivas de futuro, de tantas dificuldades enfrentadas todos os dias no árduo trabalho braçal, madrugando lançados ao mar para atividades de pesca rudimentar, várias gerações de mulheres marisqueiras de pele castigada pelo sol, ou cuidando de pequenas lavouras de subsistência. Jovens sem quaisquer perspectivas pessoais, sociais e profissionais, fadados ao desemprego ou adentrar na criminalidade. Brasileiros como nós, porém, menos reconhecidos, honrados, respeitados e protegidos em seus direitos fundamentais pelas instituições do nosso país. Maioria trabalhando em condições similares ao regime escravo, sem garantias salariais, carga horária, segurança e jornadas de trabalho.
Impressionou-me sobremaneira, jovem de cerca de 20 anos, de imagem corporal franzina,pálida, potencialmente destacada na rede de ensino local, medalhista na área de educação formal, que se dispôs receber equipe de reportagem em sua humilde residência. Estampou o quanto a falta de acesso aos serviços de saúde, saneamento básico, rede de esgoto, água tratada e encanada, coleta de resíduos sólidos (lixo), compromete a qualidade de vida das pessoas que vivem nas dezenas de habitações adjacentes. Mostrou a equipe de filmagem as torneiras da sua casa que não chegam água encanada, esgoto correndo a céu aberto, sacolas de lixo descartadas nos córregos que drenam os dejetos para os mangues. Perguntada sobre o que mais estava a lhe afligir, respondeu com olhos marejados de lágrimas: “O que mais quero é trabalhar para ajudar meus pais. Fico muito triste ao ver minha mãe chorar pelos cantos, todo dia, com muita dor de dente, queria ajudar, mas não tenho como! Meu pai, com as mãos feridas pela corda da rede de pesca, mesmo com dor e sem cuidar dos ferimentos, tem de sair de novo para pescar, senão, não tem como comprar comida e pagar o aluguel da casa onde moramos”. Por mais duro que seja o coração de quem assiste essas cenas, impossível não se sensibilizar, envolver, sentir empatia. Os realmente humanos, compartilham das lágrimas da jovem fragilizada.
Assim como ela, muitos outros narraram suas miseráveis vivências ao longo da BR 101, apresentando um intrincado conjunto de amargas experiências concretas de vida que reiteram o quanto as pautas de Brasília distam da nossa realidade. Revelam o abismo que separa a realidade do povo brasileiro das quimeras tramitadas nos três poderes, em Brasília. Palco de devaneios que os impedem de enxergar as reais demandas, sofrimento e o estado de exclusão que escraviza esse tanto dos nossos irmãos brasileiros, entretanto, simétrico com seus nada éticospropósitos de ampliar seus vários privilégios. Privilégios salariais e toda sorte de regalias bancadas pelo disponível para ser distribuído em condições harmônicas entre todos os cidadãos desse país, inclusive, aqueles mostrados noricodocumentário exibido pela Globo News. Talvez os ministros da suprema corte não o tenham assistido, pois se o tivessem visto, não teriam a petulância de aprovar aumento em seus salários para cerca de R$ 39 mil, alargando mais a distância atlântica que separa a própria remuneração mensal daquela mísera que cabe aos milhões de brasileiros assalariados. Insensíveis ao que esse privilegiado aumento salarial representa para os cofres públicos, em decorrência do efeito cascata que o mesmo desencadeia. O que implicará inevitavelmente no agravamento das já precárias condições dos sistemas públicos de saúde, educação, segurança, transporte, entre outros serviços, únicos, viáveis e essenciais à vida diária da parcela mais pobre da sociedade.
Não posso imaginar o estrago a ser contabilizado na insuflada máquina pública das três esferas de governo – municipal, estadual e federal, apenas a certeza de que a população pagará mais essa conta, como sempre. Resta-nos orar muito, rogando aos céus para que Deus nos proteja e que perdoe aos malfeitores da sociedadepelo que nos fazem passar. Que se cuidem para não sucumbir no abismo que os separam dos mortais comuns.

Por Dr. Willian Machado

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