O artista precisa estar onde o povo está

Terça, 29 de Janeiro de 2019.

O artista precisa estar onde o povo está

Era um sábado à tarde com a maior das temperaturas e, no abrigo do lar, ventiladores apontados por todos os poros, Luciano Hulk seguia seu programa com seu topete engomadinho e nenhuma gota de suor a imacular sua impecável maquiagem. Além do ar condicionado central, o programa era gravado e as jogadas levadas ao ar poderiam ser retocadas antes de ir ao ar. Já na opção global esportiva do mesmo horário, no SporTV 3, Bangu x Boavista atuavam ao vivo pelo campeonato carioca no epicentro do calor do Rio de Janeiro. Todos sabiam, inclusive a Majú, que a máxima temperatura acontece por lá e que não há jogos marcados para a mínima do Alto da Boa Vista. Em solidariedade aqueles heróis que corriam não sobre um gramado, mas pelas lavas escorridas do Krakatoa, o Inferno de Java, fiquei a assistir suas chuteiras queimarem seus pés. E testemunhar a covardia e a falta d e respeito com que a Rede Globo continua a tratar o futebol brasileiro.
Antes de ser a poderosa organização que vendeu a alma para o regime militar, e alcançou a hegemonia e as concessões das transmissões por todos os redutos da Arena, os jogos da tarde eram mais tarde. E os da noite mais cedo. Era o futebol-arte tricampeão do mundo que dava as cartas, escolhia os melhores horários, os mais agradáveis para seus artistas se exibirem. Hoje, a decisão da Copinha foi às 15h00 para não atrasar a Sessão da Tarde, e o que era para ser uma decisão, foi uma superação dos meninos em meio a um verdadeiro caldeirão. Em primeiro lugar as novelas, a das oito foi promovida para as nove ao ceder o trono da nobreza ao Jornal Nacional. O torcedor? Que se dane, trate de deixar à meia noite o Engenhão, passar pela Linha Vermelha às duas da madrugada e chegar em casa às 2 da manhã se quiser apoiar o seu Botafogo.
Antes, era o Direito de Nascer que tinha que atrasar o parto para ver o Pelé jogar. No sábado, sem uma sombra sequer em qualquer canto de Moça Bonita, eram jogadores que ascenderam à primeira divisão e buscavam um espaço melhor no futebol. E seus desempenhos poderiam ser bem melhores se a partida não fosse jogada no interior de uma sauna. E assim, implacável e capitalista, a emissora que mobiliza as ruas com a ideologia dos seus interesses, que elege quem poupa e faz da vida de quem se opõe um inferno, tratou de substituir o torcedor pelo telespectador. O lucro, assim eles pensam é bem maior.
Em conluio com a FIFA, diminuíram os estádios, aumentaram os ingressos e ampliaram os pacotes premiére dos seus campeonatos. Ou o torcedor compra o seu e fica em casa, ou vai torcer num barzinho, que todos os donos tiveram que comprar um para não perder a freguesia. Só esqueceram de um detalhe: o artista precisa estar onde o seu povo está. Longe dele, a qualidade do espetáculo cai e ai.....troca-se o canal. E mais tarde, a modalidade esportiva.
Com a sinergia das arquibancadas, a cumplicidade do calor torcedor, Zico pedia a bola e escrevia diante de uma multidão suas maiores obras de arte. Com seus cúmplices em casa, torcendo nos barzinhos, a solidão desarma o poder da criação. E com apenas 5.314 testemunhas, o primeiro clássico do nosso estadual mostrou, outra vez, que a Rede Globo continuará muito rica. E o futebol brasileiro seguirá cada vez mais pobre e sem inspiração..

Por José Roberto Lopes Padilha

B01 - 728x90