O bolo amargo de chocolate

Terça, 17 de Abril de 2018.

O bolo amargo de chocolate

Mal sei se eles, os meus novos alunos, irão retornar aos treinos na semana que vem. Se seus pais, horrorizados com o “espetáculo” da ultima sexta-feira, permitirão que retornem. Era a minha volta às aulas de futebol no CAER, mas parecia uma velha senhora que se notabilizara pelos seus bolos de chocolate e, anos mais tarde, ao retornar à ativa, “atendendo diversos apelos dos saudosistas”, encontrasse à sua frente um leite sem lactose. O cacau sem glúten e o açúcar sem graça. E gritasse que marcassem o adversário em cima, perdendo a cabeça e arrancando os cabelos porque a iguaria que colocaria em campo desabonaria a sua história No meu caso, já sem cabelos, encontrei passes errados primários, saídas de bola jamais vistas em nossas quadras. E caneladas desferidas à exaustão. Da&iacu te; chutei o balde. E as águas passadas respingaram fortes nos meninos de agora.
Completo este ano 50 anos de bola. Em 1968, aos 16 anos, apresentei-me aos infantos- juvenis do Fluminense. E nunca mais, seja como treinador, dirigente de clube, representante na federação, cronista esportivo, assessor, coordenador e secretario de esportes, me afastei do seu quicar. Neumar Candido, o meu amigo professor Tatão, diz que em minhas veias o sangue não corre. Ele rola. E neste meio século, estive à frente de quatro escolinhas, em décadas distintas, e as médias dos alunos foi caindo vertiginosamente a cada edição.
Se nos anos 90 era de em cada dez alunos, sete levarem jeito e três se contentarem em passar a vida correndo atrás daquela esfera que jamais lhe daria bola, ela literalmente despencou na minha nova reapresentação. Dentro os 20 alunos que se apresentaram, apenas sete carregam o dom, a vocação de jogar futebol. Os outros seis poderiam atuar no amadorismo, se divertir sem atrapalhar o desafio entre casados e solteiros, e os demais precisariam procurar outro ofício para não perder o seu tempo e gastar o dinheiro dos seus pais.
Terminado o treino, me baixou o maior dos remorsos. Não levara em conta, em minha fúria desmedida contra mirins de dez, onze anos,, o tempo em que lhes roubaram o laboratório dos campinhos de peladas onde iniciamos nosso aprendizado. Os poucos que sobraram, o programa Minha Casa, Minha vida, tratou de ocupar o lugar das traves. Mal lembrei-me dos pés descalços, o tato colado ao objeto de desejo exercitado pelos nossos craques à exaustão até os juvenis, em meio a topadas, afastado que foi pela gula da Nike, da Puma e da Adidas ao fabricarem chuteiras que cabem, hoje, nos pés até dos nossos bebês. E, pior ainda, a tecnologia da Sony que cada vez mais aproxima o virtual Cristiano Ronaldo do real. Tão perfeito que o menino prefere treinar no quarto, com seu joystick, do que tentar a bicicleta com os pés na sua escolinha de futebol.
Não quero desanimar os torcedores brasileiros, mas pelo que observei na minha volta é que a nossa ultima grande safra vai se apresentar em junho na Rússia. A que ficou por aqui e vai jogar o brasileiro, não será mais capaz de ganhar outra Copa Libertadores. Quanto a mim e aos meus meninos, melhor levar um suco de maracujá e um bolo de chocolate no próximo treino. E lhes pedir desculpas porque ao retirarem o sal da receita de jogador de futebol, e a paciência de uma velha raposa, o futebol brasileiro ficou impedido de servir aquele inigualável bolo que dava chocolate nos outros.

Por Bruna Spada

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