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O Cabralvírus

Sábado, 21 de Março de 2020.

  O Cabralvírus Pensei, nesta manhã de sexta-feira, em ir até o açougue comprar uns bifes. Mas, confesso, não estou preparado para receber um olhar desconfiado sobre a presença, ao vivo, dos meus raros cabelos brancos. Se outrora carregavam vestígios de respeito aos mais velhos, hoje, serão recebidos com máscaras e devolverão o troco passando álcool gel, e sal grosso, diante de testemunhas.
O momento é delicado para os que estão, como eu, acima dos 60 anos. Melhor ficar em casa lendo um bom livro e pedir ao filho mais novo que compre os bifes para evitar maiores constrangimentos. Porém, ontem, queria por que queria sair de casa. Estava inquieto quando...pensei no Sérgio Cabral. Daí relaxei. Ufa!
Sua mansão em Mangaratiba, os helicópteros, viagens a Paris, o poder desmedido e a Adriana Anselmo em seus braços. E a companhia dos seus filhos. De repente...ele está confinado não por precaução, mas por uma pesada sentença que o mantém em um presídio desde novembro de 2016.
Condenado a 215 anos e 11 meses de prisão. Uma quarentena diante disso não passa de uma pausa para o cafezinho.
Entender as razões que o levaram a contrair o Cabralvírus, que proporcionou a um cidadão do bem, inteligente e culto, vereador, governador, senador da república, criado em uma família tradicional carioca, que tem no alto da sabedoria nosso grande ídolo, o simpático vascaíno, jornalista e escritor, autor de grandes biografias, Sérgio Cabral pai, a perder definitivamente sua liberdade, será um dever de casa para todos nós durante a quarentena. Um bom tempo para reflexão.
Ao rever sua trajetória, os caminhos abertos pela corrupção, pelos desmandos e privilégios concedidos pelo nosso imoral universo político, quem sabe todos os políticos voltem aos seus postos entendendo que quem governa precisa viver como seus governados. Isto é, apenas dos seus rendimentos. Do fruto do seu trabalho. Simples, não?
Ao acumular benefícios que o cidadão comum não possui, ter suas rachadinhas protegidas pela imunidade parlamentar, receber jeton que o trabalhador de carteira assinada não recebe, auxílio moradia se quem votou nele paga aluguel, de gasolina de quem nunca mais pisará num ônibus, passagens aéreas protegidos do clamor popular na primeira classe, dezenas de funcionários em seus gabinetes quando mal temos uma funcionária com carteira assinada, daí todo político, isolado da sua realidade, começa a ter febre por adquirir uma ilha em Angra dos Reis.
E no primeiro espirro de uma licitação arranjada de uma Copa do Mundo, a adquire, mesmo ganhando um salário que mal permitia dar entrada em uma cobertura no Leblon. E pagando à vista.
Liberdade, liberdade, abra a mente sobre nossos políticos durante o refúgio do Coronavírus. E que os sintomas do Cabralvírus, que levaram nosso ex-governador a perdê-la definitivamente, jamais seja a voz e os calafrios na pele de quem ouse nos representar daqui pra frente.
A vacina será a decência, a ética e a lisura no trato da coisa pública.
Porque daqui a pouco voltaremos às ruas. Poderemos ir ao açougue, ao cinema, ao teatro, ver o sol nascer redondo. E ele?

Por José Roberto Lopes Padilha

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