O Estágio Boechat

Quarta, 13 de Fevereiro de 2019.

O Estágio Boechat

Nós, jornalistas, aprendemos durante o nosso ofício que não há liberdade de expressão em nossa profissão. Se você trabalha no sistema Globo, pau no governo. Se você é funcionário da Record, elogie e ore por ele. Manda quem pode, obedece aos patrocinadores quem quer um emprego seguro. Obedece, escreve e anuncia o que não concorda quem ainda não alcançou o estágio Boechat.
Para falar o que pensa, e não o que querem ouvir, e se equilibrar no bom senso e ficar do lado da verdade, ora criticando, outras elogiando sem jamais perder o humor, ele precisou ir trabalhar em rádio e abrir mão de comandar o Jornal Nacional. Faustão pode até se defender afirmando que seu desabafo foi gravado. A televisão censura, edita, corta, maquia e põe no ar quando lhe interessa. A notícia, em suas novas versões, o Bonner anuncia sem um só piscar de olhos. Sem que o verniz escorra um só instante por sua imagem séria e impassível.
No rádio, não, é ao vivo o jornal e só as ondas instantâneas da Band News estiveram à altura da sua coragem, do estágio de independência e liberdade que alcançou em sua carreira. E por lá vivia o auge do jornalismo que todos nós, sem exceção, gostaríamos de alcançar um dia.
A Rádio Globo fica vinte e quatro horas no ar. E a GloboNews nunca para. Mas quando o lamaçal em que se envolveu o Queiroz cede as primeiras páginas para uma nova lama, a de Brumadinho, vem o incêndio no Ninho dos Abutres e joga o filho do presidente para um cantinho das páginas, e nem espaço há mais para as bobagens da Damares, você descobre que existe uma outra barragem rompida. Desta vez carregadas de atos e gestos do bem elevados aos céus, que entra em todas as audiências por todos os veículos de comunicação reprisando suas belas lições de jornalismo. E lhe concedendo por unanimidade méritos e justiça.
Liberdade, liberdade, abra as suas asas sobre nós. E que a voz da igualdade seja sempre a sua voz. Carregada de credibilidade pública e generosidade interna, que sua história e seus exemplos não seja apenas noticiados e lamentados. Sejam, finalmente, seguidos por um país que está cansado de ser enganado por suas teleguiadas telinhas..

Por José Roberto Lopes Padilha

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