O Grande Burguês

Por Carlos Bernardo González Pecotche (Raumsol)

Quarta, 18 de Setembro de 2019.

  Refletia um milionário – cujas riquezas, de tantas que eram, ele jamais pôde conhecer – sobre a inutilidade de sua vida e sobre quão desgraçado ele mesmo se considerava ao viver cheio de temores e desassossegos. “De que me servem tantas riquezas”, pensava, “se estou enfastiado de tudo e não consigo me livrar da angústia que corrói minha alma?”
Preocupado com essa ideia, decidiu finalmente consultar um renomado sábio, para pedir-lhe que o tirasse de tal atoleiro.
– Quer dizer – perguntou-lhe este – que não podes, com todas as tuas riquezas, ser feliz?
– Não – respondeu-lhe o magnata da fortuna. – Tenho tudo que me apetece; não me falta nada, a não ser a paz de meu espírito e a felicidade.
– Pois nada te falta, então – replicou o sábio –; a menos que atribuas algum valor ao que disseste por último.
– Valor... valor... – murmurou ele, pensativo; e, como se de repente entendesse a insinuação, afirmou: – De fato, não havendo paz em meu espírito, não faço mais que me consumir numa eterna desdita. Mas, como poderia fazer para me sentir feliz? Diz-me.
– Olha: daqui mesmo parte um caminho. É longo, embora não tanto que não possa ser percorrido em toda a sua extensão. No final dele, descobrirás umas chaves que, tão logo sejam tuas, farão de tio homem mais feliz da terra. Poderás até centuplicar tua fortuna, se quiseres, mas sob a condição de que com ela faças o bem e contribuas para a felicidade dos demais, sem que isso signifique, como é natural, que devas prescindir do que anelas para ti.
O milionário olhou fixamente para o sábio e, depois de pensar por um breve instante, resolveu:– Parece-me muito bom o que dizes; vou enviar hoje mesmo meus secretários para que me tragam essas chaves. Obrigado, pois, pelo teu conselho.
Os secretários partiram, e, enquanto os dias e os meses passavam, o grande burguês continuava com seus tédios e inquietudes, que cada vez o atormentavam mais. Tendo em vista que eles não voltavam, mandou outros com a mesma missão, mas tampouco estes regressaram.
Como os anos passavam e não lhe chegava notícia alguma, tomado pelo desespero foi ele um dia em busca do sábio, a quem informou das gestões por ele adotadas, inquirindo-lhe com estranheza sobre as causas que poderiam ter motivado a tão prolongada ausência de seus emissários.
– A felicidade, meu bom homem – respondeu-lhe o sábio –, deve cada um buscá-la por si mesmo; sua conquista é absolutamente pessoal. Eu te orientei para que fosses à procura das chaves, e tu, para te livrares de incômodos, enviaste teus secretários para buscá-las.
Aconteceu, assim, que, enquanto estes, de posse das chaves, são felizes, os próprios deveres dessa felicidade os impedem de voltar à tua procura e perder o tempo, que eles ocupam em ensinar outros, mais bem dispostos, a encontrá-las. A prova de que isto é uma verdade, tu a tens no fato de que, se eles nada tivessem encontrado, já estariam de volta para continuar sendo teus servidores.
Impressionado o grande burguês pelo acontecido, e já sendo velho, pois longos anos haviam transcorrido na espera daqueles, perguntoucom ansiedade:– Diz-me: terei ainda tempo de ir eu mesmo? Encontrarei também essas chaves e serei feliz?
– Podes fazê-lo, se quiseres. Ninguém te impedirá. Mas a vida que perdeste de maneira estéril, essa não voltará para ti. Quiseste ser feliz; sentiste essa necessidade quando ainda eras jovem e forte; no entanto, preferiste, como bom burguês, que outros fizessem as coisas por ti, enquanto tua vida ia se consumindo no ócio, no fastio, nos temores e nas angústias da infelicidade. Vai, pois, e procura-as por ti mesmo, se tens forças para alcançar a meta.
O milionário, já ancião, partiu, pensando que ainda lhe poderiam restar muitos anos de vida, mas bem depressa o cansaço o venceu, por causa da idade e da falta de adestramento para andar. Não obstante, avançou alguns trechos, e caiu desfalecido, para não mais se levantar.

Pensamos que se pode extrair de nosso relato a seguinte moral: Não se deve delegar a outros o que concerne ao próprio conhecimento.
A felicidade, cuja conquista é exclusivamente individual, não pode ser encomendada a terceiros.
do livro Intermédio Logosófico, pág.73
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