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O outro invisível

Quarta, 08 de Julho de 2020.

Atualizado em Quarta, 08 de Julho de 2020 às 11:06 horas.

  O outro invisível

Depois que o governo, durante a pandemia, descobriu os invisíveis que circulavam pelas ruas sem CPF, Bolsa Família, ou qualquer benefício social, a quarentena revelou dentro de casa um outro ser invisível de tantos e inestimados serviços prestados. E como aquele brasileiro ralador e comum, literalmente ignorado em prosa, trato, verso e cadastro da Caixa.
Talvez seja também o mais injustiçado de todos, acredito, na casa de muita gente. Pois poucos se prestam a acolher nossos sonhos e suportar nossos pesadelos em absoluto silêncio. E testemunhar os êxtases, sussurros, se omitir nas discussões que costumam varar as madrugadas.
Ele tem se portado desse jeito desde que nasci. Respeitando a tudo e a todos que levamos desde cedo, seja a coelhinha, depois a namorada até sossegar o facho com a esposa, para a cama.
Mesmo assim, passando 1/3 das nossas vidas coladinhos ao nosso lado, cúmplice maior do que qualquer amigo que perdeu o tempo e a paciência de nos ouvir, não há um só dia em que o reverenciamos.
Comemora-se o Dia do Livro e, ao contrário, nem 1/3 da população folheou suas páginas. Tem a Festa da Uva, no sul, a do Tomate, em Paty, e ele não é atração, sequer cobiçado ou estampado nos encartes, no Black Friday.
Será porque o escondemos sob os lençóis? Que insistem em permanecer modestos, discretos, mesmo quando lhe cobrem, em noites festivas, de gala, com tecidos finos de seda ou puro linho?
Ingratos, deitamos sem lhe dar boa noite. Desagradecidos, levantamos sem lhe dar bom dia.
Apesar da evolução que buscou para nos servir melhor, aliviar nossas dores no pescoço, coluna e alma, tratamos de trocá-lo sem dó ou piedade quando ácaro o abraça, as molas cedem, suas vestes rasgam.
É dura sua rotina assentada sobre ripas, embora conceda modelos macios, até ortopédicos, para os que estão acima. Enfim, quase uma vida de cão leva o nosso invisível dentro de casa. Mas se um dia resolverem abrir a boca, colaborar em uma delação premiada, vão se vingar.
O invisível que se revelou e nos abraçou por inteiro durante a quarentena, sabe mais das nossas conquistas, intenções e frustrações do que qualquer um travesseiro. Dos que estão ao lado. Daqueles que estão faltando ao lado.
São 8h04m, terça-feira, 7 de Julho de 2020. Melhor voltar pra cama e lhe pedir desculpas. Nunca será tarde porque o deixei muito cedo. Foi mal, meu colchão. Tenha, igualmente, um bom dia.
À altura do divã que se tornou e que tem suportado para tornar melhor o meu. Daqui pra frente, tantos os seres humanos esquecidos quanto os esquecidos que repousam todos os seres bumanos, se tornarão servidores essenciais à nação.

Por José Roberto Lopes Padilha