O pai da criança

Quinta, 20 de Dezembro de 2018.

O pai da criança

A História fez pouco caso do meu xará. De repente, no ano zero que terminava AC e começaria DC, o carpinteiro humilde de Belém, José, viu sua mulher prometida, Maria, que era virgem, surgir grávida em Jerusalém. E de um espírito! Qualquer um se inscreveria no programa Teste de Infidelidade, do João Kleber, pediria exame de DNA no Ratinho para se livrar das gracinhas e insinuações de Nelson Rubens. E tremeria de medo quando a edição de Contigo chegasse às bancas depois do vexame estampado com a manchete de capa do jornal Meia Hora. Pelo menos durante duas semanas ficaríamos sem ir à sauna do Caer e quanto ao Bar da Ana, esquece. Vão fazer gracinhas com sua cara. Outros carpinteiros, mais rudes, dariam motivos a mulher para entrar em uma delegacia, dar queixas, realizar exames de corpo delito e se tornar símbolo de uma Lei Maria de Belém. Mas José de Nazaré se calou e acolheu o menino Jesus.
Estava pensando em tal injustiça, a de não lhe conceder os méritos altruístas, quando da inauguração do presépio na Praça São Sebastião. As famílias se sucediam em frente aquela bela obra de arte e nenhuma criança presente sabia quem era aquele personagem ao lado da sua mãe. Conheciam os três reis magos, até os símbolos do ouro, da mirra e do incenso que levaram de presente. E elogiaram as ovelhas, e, claro, o menino que nascia para mudar os destinos da humanidade. Mas tive que intervir, em nome de todos os Josés, e dizer: aquele ali com o cajado era o pai de Jesus. Daí uma delas, com seus oito anos, respondeu: “Mas ele não é filho de Deus?”
Somos todos filhos de Deus. E gratos a José. Se ele fosse como todos nós, ciumentos e explosivos, o berço do cristianismo seria inaugurado em conflito, audiências, separações e pensões. E passaríamos apenas os fins de semana acolhidos pela fraternidade. Então, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo solicito que às vésperas dos seus dois mil e dezoito anos de idade se faça justiça ao pai desta criança que nos encheu de esperança. Se a Bíblia foi comedida quanto a sua importância, e nem o convidou para participar da ceia, se Franco Zeffirelli escalou um ator menor para o seu papel no épico Jesus de Nazaré, cabe a nós, batizados com o mesmo nome do pai terreno, corrigir uma sagrada injustiça: Parabéns para você também, José, nesta data querida!

Por José Roberto Lopes Padilha

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