O que a execução política de Marielle Franco nos revelou sobre o Brasil? Batalha covarde das notícias falsas

Sexta, 23 de Março de 2018.

Os desdobramentos em torno da execução política e covarde da vereadora do PSOL-RJ Marielle Franco são os mais diversos. A clareza de que tratou-se de uma execução política precisa ecoar em cada canto desse país. Sem isso, o risco de ser dominado pelo cântico fascista é imenso.
Tão logo confirmou-se a execução de Marielle Franco na noite de 14 de março, diversas mensagens nos grupos de whatsapp, no facebook e em conversas pessoais indicaram que a parlamentar do PSOL seria apoiadora de bandidos, ex mulher do traficante Marcinho VP (existem dois traficantes que possuem esse nome, sendo que um está morto desde 2003), que sua filha seria dessa relação. Fotos passaram a circular. Tal fato ganhou maior peso quando desembargadora Marília de Castro Neves publicou em seu perfil numa rede social na noite de 16-03-2018 (48hs depois da execução) a seguinte mensagem:
A questão é que a tal Marielle não era apenas uma ‘lutadora’; ela estava engajada com bandidos! Foi eleita pelo Comando Vermelho e descumpriu ‘compromissos’ assumidos com seus apoiadores (... ) Temos certeza que seu comportamento, ditado pelo seu engajamento político, foi determinante para seu fim trágico. Qualquer outra coisa diversa é mimimi da esquerda tentando agregar valor a um cadáver tão comum quanto qualquer outro (https://g1. globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/entidade-apresenta-reclamacao-no-cnj-contra-desembargadora-que-postou-fake-news-sobre-marielle-franco.ghtml)
Frente a imensa repercussão, a desembargadora admitiu que obteve tal informação a partir de uma amiga.
O estrago já estava feito. A publicação, dita por uma figura PROEMINENTE do JUDICIÁRIO BRASILEIRO, repercutiu em todo o final de semana. Cada grupo de whatsapp repetia que Marielle Franco era colaboradora do tráfico e que por isso teria morrido. Sem uma única prova, uma única escuta telefônica, investigação policial, uma DESEMBARGADORA denuncia que uma parlamentar recém morta era “engajada” com tráfico de drogas. Também o deputado federal Alberto Fraga (DEM-DF) repetiu a mesma informação falsa em seu TWITTER. A Procuradoria Geral da República e Comissão de Ética da Câmara irá investigar a conduta do referido deputado.
Posteriormente, descobriu-se que a mesma desembargadora Marilia Castro Neves pediu o fuzilamento do deputado federal Jean Willys (PSOL-RJ) numa rede social em 29 de dezembro de 2015. A frase exata foi:
Eu, particularmente, sou a favor de um paredão profilático para determinados entes… O Jean Willis (sic), por exemplo, embora não valha a bala que o mate e o pano que limpe a lambança, não escaparia do paredão (http://g1. globo.com/jornal-nacional/noticia/2018/03/ desembargadora-que-postou-mentira-sobre-marielle-ofendeu-professora.html)

Vejamos a gravidade dos eventos. Uma autoridade judiciária vem a público manifestar-se pelo assassinato de um parlamentar. Ainda afirma que esse parlamentar não valeria sequer o custo da bala e o trabalho de recolher seu sangue. Existe alguma dúvida que a desembargadora que está pregando um assassinato? A desembargadora foi acionada pelo Conselho Nacional de Justiça para abertura do procedimento para investigação de sua conduta.
Somente com a campanha aberta contra a conduta de difamação que as pessoas simplesmente refletiram. Será que essas informações sobre Marielle Franco eram verdadeiras? Se não eram, por que muitas pessoas – ALGUMAS ATÉ DECENTES- apenas acreditaram e pronto? É preciso não naturalizar esse processo. Marielle foi assassinada duas vezes: pelos fascistas que atiraram e por cada um que reproduziu irracionalmente as notícias falsas. Aqueles que o fizeram terão de acertar as contas com a justiça e com sua consciência. CALAR-SE É ALIMENTAR OS CÃES RAIVOSOS DO FASCISMO.

Marcelo Paula de Melo é doutor em Serviço Social (UFRJ) e professor da EEFD-UFRJ.

Por Marcelo Melo

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