O Quintal adversário

Terça, 30 de Outubro de 2018.

O Quintal adversário

Mal saiu o resultado das eleições, os carros começaram a se dirigir para nossa rua. Em uma vitória, eleitoral ainda por cima, diante de uma democracia que apenas engatinha, não bastava o delicioso sabor da conquista. É do brasileiro, irreverente e gozador, procurar o quintal do adversário para ir até lá provocar. E os buzinaços, os gritos dos amigos que votam ao contrário, mas nos respeitam, o ódio, felizmente, de poucos, ao apertar a buzina e nos fuzilar os tímpanos, foi até a meia-noite do domingo para desespero dos vizinhos.
Talvez levado por três derrotas nas costas, Collor e FHC, e quatro vitórias seguidas, com Lula e Dilma, deva ter alcançado a tal maturidade política. Mas tinha algo a mais naquela luz que nos mantinha estranha e absolutamente sereno. Ao notar que minha residência virou uma referência da minha história política de luta, ao se tornar rota dos vencedores, a decepção foi virando orgulho.
Se antes viam até aqui me provocar quando o Fluminense perdia, o numero 81 da Rua 14 de Dezembro se tornou a sede local do Partido dos Trabalhadores. Fluminense e PT. Foi com muitas idas à linha de fundo e com o megafone ligado pelos bairros e calçadões de minha cidade que alcancei, em definitivo, meu alvará de licença e funcionamento.
Muitos que passaram por aqui levam sua vida buzinando obras alheias. E mesmo a Fundação Roberto Marinho afirmando que “o homem só é eterno quando sua obra continua”, insistem em caminhar por sua existência apenas...buzinando. Não há clubes sociais ou esportivos, partidos políticos, entidades de classe, sindicatos, Asilo, Creches, APAES, Grupos de Fé e Esperança, uma causa nobre que seu egocentrismo permita ceder qualquer tempo, abnegação, voluntariado ou dedicação
Ninguém, em três décadas, veio até aqui nos parabenizar pelo HTO, inaugurado pelo Lula, em Paraíba do Sul. O Campus da Universidade Rural, que traz o nome do Ministro Haddad na placa, as 960 famílias beneficiadas com o Bolsa Família e, muito menos, as 836 casas construídas pelo Programa Minha Casa&Minha Vida nos bairros Habitat e Barros Franco.
Mesmo assim, ontem, depois de trinta anos de filiação, com duas candidaturas a prefeito e duas a vereador carregando uma estrela no peito, dezoito anos como servidor público e gestor de esporte e lazer com todas as contas aprovadas, tive a certeza que valeu a pena desfraldar minhas bandeiras. Só perdemos um campeonato, uma eleição, um concurso, a mulher cobiçada, uma vaga no Enem quando não lutamos por elas. A luta por si só, acreditem, vale a pena.
Aos que se abstém de qualquer contribuição social, vale lembrar que, além da buzina, há retrovisores nos carros. Sempre bom dar uma olhada para saber se há resquícios de pó de pedra, uma cerca qualquer, um território demarcado pelo caminho que abrigue um quintal erguido para comemorar as conquistas. E receber, em paz, as gozações adversárias. Caso contrário, você sabe, deixa a vida te levar pelo GPS do painel que acaba de acender uma luz vermelha. Cuidado, Perigo!"

Por José Roberto Lopes Padilha

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