O Solista

Sábado, 17 de Agosto de 2019.

O Solista

Não sei de quem partiu o batismo. A honrosa distinção. Mas a quem foi dirigida, um atleta cidadão acima do bem e do mal, poucos seriam capaz de contestar à época E a expressão "Júnior, o Maestro", foi ficando em definitivo, incorporada ao dicionário cotidiano do futebol. Tão importante na história da maior nação esportiva do pais, quem seria capaz de dizer o contrário? Se colocar contra uma divindade que ainda tem seu rosto desfraldado nas bandeiras pelas arquibancadas séculos depois de ter jogado? Quando ouvi pela primeira vez a expressão, ela não desceu bem no meu imaginário esportivo. Jogara contra ele ao seu lado, tantos Fla-Flus desde os juvenis e sabia, defenderia até tese de mestrado se fosse preciso, que Leovegildo da Gama Junior, meu ídolo e amigo, jamais fora um maestro. Júnior foi, sim, um fantástico solista na preciosa orquestra que tocou até em Tóquio. Nas exibições eternas em que vestiu e honrou o manto sagrado.com a camisa 5. Júnior flutuava seus preciosos solos pélas laterais, surgia pelo centro como fator surpresa e levava a galera a pedir bis quando sua classe emergia diante de uma defesa adversária que atuava em linha. Mas todo maestro precisa estar, necessariamente, ao centro de sua equipe, ouvir todos os laterais, estar próximos aos anseios da zaga. Do clamor do oportunismo do Nunes, da inspiração ilimitada do Zico e das subidas surpresas do Rondinelli, do Adílio e do Toninho. Maestro foi o Gérson, que regia o andamento das suas equipes com toques curtos. E acelerava o compasso, quando pressentia o momento, com notas musicais que alcançavam até 50 metros das galeras e galerias_ Pedia calma, dava esporro, exigia respeito dos músicos e silêncio até mesmo do juiz. Maestro foi Ademir da Guia. o Divino, que tinha o Dudu ao lado e comandava o andamento de uma fantástica academia . E Maestro foi Didi, que jogava uma nota seca, única, que flutuava acima da partitura. Esta semana, durante o aniversário do Flamengo, quando o Globo Esporte lhe prestou uma homenagem ao lado do maestro João Carlos Barroso, pela primeira vez fez vi o Júnior deslocado em palco. Estava postado no centrado vídeo, onde todos o percebiam. Não poderia mais desenvolver sua magia, surgir como fator surpresa, ser o solista fantástico que aparecia no vazio a balançar as redes argentinas. Junior é Nilton Santos, Marinho Chagas, ninguém mais tocou como eles, com a arte dos pés trocados, o instrumento bola que tanto seduz e inspira uma nação.

Por José Roberto Lopes Padilha

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