O tesoureiro da Gávea

Sexta, 20 de Setembro de 2019.

O tesoureiro da Gávea

João Carlos Teixeira, 68 anos, é tesoureiro do Flamengo. Funcionário público exemplar e aposentado, foi apresentado ao ex-presidente do clube, Bandeira de Mello, que procurava um substituto à altura para uma lenda daquela instituição chamada Maurício Farah.
Ontem, João Carlos, morador do Méier, pai de três filhos e avô de três netos, saiu cedo de casa com seu Pólo, ano 2013, para pagar a folha de julho. Ele ganha R$ 5.620,00 já descontados os impostos. O primeiro depósito que fez foi em nome de Rodinei de Almeida, lateral direito reserva do clube. Valor: R$ 380.000,00. Já descontados os impostos.
João Carlos sempre foi bom de matemática e ruim de bola. Por mais que tenha lidado com salários na vida, mesmo na prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, onde despachou por trinta anos, a diferença entre o que ganhava um gari e o prefeito não era tão aviltante. Não o chocavam daquele jeito.
E ficou a pensar, e olha que ainda não tinha chegado a depositar o salário do Bruno Henrique: ralo pra caramba, pego todo dia a Avenida Brasil engarrafada e deposito uma fortuna para este cara treinar de shortinho todo dia, ao ar livre, e sentar domingo no banco de reservas?
Inconformado, dia seguinte, antes de voltar à Gávea, pegou seu neto pelo braço, passou no seu colégio e o tirou de dentro de sala para treinar no Bonsucesso. Era o clube de futebol mais perto da sua casa. Adrianinho, seu neto, bom de matemática como o avô e tão ruim de bola quanto ele, logo na primeira canelada que deu foi dispensado.
O treinador, Denilson, o Rei Zulu, tinha ainda mais 30 jogadores para selecionar em sua peneira. E bater na canela era um quesito que facilitava as coisas. Acelerava seu processo de escolha.
Entraram no carro, avô e neto, e voltaram tristes para casa. Estavam no país do futebol, não da cultura, da educação, e não entenderam isto. Um lugar onde os Deuses da Bola encontraram uma receita eficaz, perante tal secular descaso, de redistribuir melhor a renda e diminuir o abismo social entre os seus habitantes.
Rodinei de Almeida, que pouco estudou, vai pegar seus 380 mil e comprar uma casa para seus pais e ajudar parentes carentes até da sua quinta geração. Levar dignidade e comida ao lar de cada um. Já Adrianinho, que tem o privilégio de estudar, vai passar no Enem, se formar, ganhar um bom salário e ajudar apenas a si próprio. Todos os seus vivem bem, obrigado, nunca precisaram de cotas.
Onde tem educação, todos tem futuro. Onde falta, ou os seus meninos só conseguem alcançar o ensino fundamental, o talento, a criatividade e a superação ficaram a eleger porta-vozes de suas comunidades carentes que irão colocar a bola social em seu devido lugar. Torna-la menos injusta. Menos desigual.
O pagamento dos jogadores de futebol do Flamengo foi realizado, ontem, com sucesso. Já o Bonsucesso FC, deve três a quatro meses de salários aos seus jogadores e funcionários.
Obs. Qualquer semelhança com pessoas e clubes, vivos ou mortos, salários devidos ou não, terá sido mera coincidência. E pura reflexão.

Por José Roberto Lopes Padilha

B01 - 728x90