O Ticket Criança

Sexta, 05 de Julho de 2019.

O Ticket Criança

A mãe, toda orgulhosa, deixava a maternidade do Hospital Santa Teresa com seu recém nascido no colo. Envolvendo-o em uma manta, passou pela catraca com a felicidade do dever cumprido. Mal sabia que iria encontrar à frente um país que não cumprira o seu dever. Pois no lugar de encontrar uma família em festa a lhe esperar na recepção, que decepção, olhou em volta, olhou por todos os lados, e desceu as escadas para esperar a única testemunha da sua chegada: o pai, que fora buscar o carro no estacionamento. Trazia uma nova luz que ia perdendo o brilho diante do pouco caso com que era recebida.
Há algum tempo, no mínimo, estariam ali os avós, os tios, padrinhos e sobrinhos, quem sabe até os Reis Magos, a festejar a chegada daquela menina, a Sophia, que fiz questão de saber o nome. Hoje, sem controle de natalidade, banalizou-se, pelo descontrole, o símbolo maior da criação: a concepção.
Coincidência ou não, era dia do Teste do Pezinho. E eram tantas meninas que mal conheceram o mundo, na plenitude da sua adolescência, que se aglomeravam pelo saguão carregando suas bonecas de verdade. Que iriam comer, chorar e fazer xixi aos cuidados dos seus avós que ainda estavam cumprindo seus estágio de pais. Eram meninas de um país que deveria tomar conta dos seus habitantes, quem entra e quem sai, não transformá-las em índices que superlotam seus maus providos SUS, mal cabem em suas escolas e daqui há pouco estarão espremidas pelas fronteiras como excesso de bagagem. Como tantos refugiados.
O Programa Bolsa Família, antes criticado, hoje exaltado a ponto de seus antigos adversários prometerem até seu 13º, acertou matando a fome da geração que o recebe e salvando a seguinte, com educação e saúde, diante da obrigatoriedade da vacina e da presença na escola para continuidade do recebimento dos benefícios. Porém, precisa limitar o número de crianças por família. São comuns as mais carentes passarem carregadas pelas mães, rumo à Caixa, não como filhos, mas como notas promissórias, vale transporte, de um Ticket Criança a mais.
Ainda bem que estava ali, atento, como todo jornalista e cidadão brasileiro. Aproximei-me dela e diante daquela ausência de fogos de artifícios, estouro da champanhe, do churrasco na chegada que certamente fora esquecido, disse em nome de uma pátria ausente: Seja bem vinda Sophia. Devemos a todas elas um Brasil melhor.

Por José Roberto Lopes Padilha

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