O último ato

Terça, 08 de Janeiro de 2019.

O último ato

Vivemos tomando lições. Algumas passam batidas, outras paramos a refletir e, na verdade, poucas delas acatamos. Há uma barreira de valores concretadas, afiveladas com a arrogância dos saberes adquiridos e protegidas com pitadas da prepotência acumulada. Quanto mais idade, menos são acolhidas ou compreendidas. Tipo ser um brilhante comunicador, diretor teatral premiado, âncora do programa de maior audiência da cidade e, de repente, uma loja de roupas ou de sapatos lhe convidar para ficar em frente a ela, microfone em punhos, caixa pequena amplificada, com a missão de anunciar os seus produtos. No futebol, seria o mesmo de um dia ter defendido o Flamengo e, de repente, receber o convite do Íbis FC para jogar a segunda divisão do estadual pernambucano.
Conheci pouco o Zé Mauro. Sou uma daquelas pessoas que passa uma vida inteira dando oi, bom dia, olá a muitas pessoas, e que não teve o privilégio de parar um só minuto para trocar duas palavras com quem a engrandeceria. Azar o meu. Esta, infelizmente, foi minha relação com ele e foi com espanto que o vi, diante do tamanho do seu currículo, aceitando o cargo acima oferecido com toda a naturalidade desse mundo. Foi em frente à antiga rodoviária que o assisti representando com dignidade seu ultimo ato em vida.
Não posso negar, não desceu bem aquela cena. Como todo mortal que continua por aqui a trilhar um processo evolutivo, lento e gradual, era um gesto de nobreza que estava acima do entendimento comum. Zé Mauro, seguro e tranqüilo em sua nova missão, não gostaria de se despedir da gente sem deixar, antes que as cortinas se fechassem, uma definitiva lição de humildade. Que seu gesto, de mostrar que todo papel é digno, desde que seja digno, honesto, nos faça refletir. E ter a mesma humilde de levantar da poltrona, aplaudir e pedir bis para sua derradeira e irrepreensível performance em vida. Missão cumprida, diretor. Descanse em paz.

Por José Roberto Lopes Padilha

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