Obrigado, Arrascaeta

Sábado, 06 de Abril de 2019.

Obrigado, Arrascaeta

Mesmo sendo uruguaio e sabendo mais das histórias de Obdúlio Varela, Gighia e Cia. do que dos feitos de Didi, Gérson e Jairzinho por aqui, os Deuses do Futebol lhe avisaram na concentração sobre uma rivalidade insuperável, em termos de público presente, no Brasil e no mundo em partidas entre clubes de futebol: 194.643 torcedores, no Estádio do Maracanã, no dia 15 de Dezembro 1963.
E quando o empate iria tirar das finais do estadual um clássico deste tamanho, eis que ele, Arrascaeta, surge do nada, porque o Fla x Flu começou quarenta minutos antes do nada, decreta o empate, leva a partida para os pênaltis e nos concede mais um capítulo desta bela e inigualável rivalidade de presente.
Joguei, desde os juvenis até os profissionais, vários Fla x Flu. Garanto a vocês, você pode ter um ataque com Paulo César Cajú, Mário Sérgio e Rivelino, e depois ter o Zico escalado ao lado do Geraldo e do Júnior, que nada indicará um favorito.
No Fla x Flu, não são os jogadores que entram em campo. São as camisas carregadas de conquistas, rivalidades, superações, que se enfrentam. Vão escalar os goleiros, mas será a sombra de Marcial, o espectro de Carlos Castilho que irá defender cada meta. E a presença do Assis surgindo do nada frente do Raul, a bola do Zico acertando o ângulo do Renato, os maiores lances de sua história estarão presentes como um gol de barriga ao apagar das luzes de quem precisava apenas de um empate. E ainda teve o Romário dos dois lados.
Certa vez, em 1973, assistia do banco de reservas, ao lado de Cléber e Carlos Alberto Pintinho, o Fluminense ser campeão em cima do Flamengo. Ganhávamos por 4x2 e o Manfrine, vindo do Palmeiras, arrebentou com o jogo. Quando a partida caminhava para o seu final um atacante rubro-negro, ainda franzino, ao tentar evitar uma saída de bola à nossa frente, escorregou na poça e levantou debaixo da maior vaia da sua própria torcida.
Antes de entrar em campo para a volta olímpica, profetizamos em coro: “Depois desta, este menino não deve ir longe na carreira!.” Na súmula constava seu nome: Arthur Antunes Coimbra. Conhecido como Zico.

O Fla x Flu também derrota profetas. Contraria previsões. E escreve, a cada edição, uma nova página bonita na história do nosso futebol. Obrigado, Arrascaeta, por trazer estas sagradas camisas de volta ao campo por um lugar na final. Nem sei quem jogaria no sábado se você não acertasse aquela cabeçada, mas o futebol carioca, e brasileiro, lhe agradece por não perder o que resta de sua magia.

Por José Roberto Lopes Padilha

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