Os Cantores Castrados

Sábado, 05 de Janeiro de 2019.

Os Cantores Castrados


Surge, no século XVI, um curiosíssimo fato na história musical: a prática em larga escala de castração de cantores a fim de preservar-lhes as extensões agudas da voz. A prática da castração, contudo, antecede a esta data. Sabe-se que, desde o Império Bizantino (400 d.C.), castravam-se jovens a fim de mantê-los nas linhas agudas (soprano e contralto) dos coros. Entretanto, em 1589, o Papa Sisto V baniria o canto feminino na Europa católica, passando a recrutar meninos castrados para cantar no Coro da Capela Sistina.
Logo percebeu-se que os cantores castrados possuíam algumas outras vantagens além de sua voz aguda. A falta de testosterona causava algumas deformidades que também foram aproveitadas para a prática musical. A ausência do hormônio masculino nos jovens cantores impedia que as juntas ósseas se desenvolvessem normalmente, o que fazia com que eles não parassem de crescer e tivessem uma enorme caixa torácica e maxilar proeminente. Com isso, os castrados mais bem treinados possuíam uma capacidade vocal superior a de qualquer outro cantor.
Em pouco tempo, os cantores castrados sairiam dos coros das igrejas e conquistariam os palcos dos teatros de ópera. Devido à sua voz potente e porte físico, eram perfeitos para assumir papéis na arte lírica. Inicialmente, tomavam parte nos papéis femininos das óperas, já nos anos 1680, apresentavam-se, também, nos papéis masculinos principais.
O auge dos castrados na ópera deu-se na primeira metade do século XVIII. Os compositores Nicola Porpora (1686-1768) e George Frederic Handel (1685-1759) destacaram-se por utilizar amplamente a voz dos castrados em suas óperas. Nesta época, os cantores castrados eram considerados os músicos mais bem pagos da Europa. O castrado mais famoso, foi “Farinelli” (foto), pseudônimo de Carlo Broschi (1705-1782), tido como um dos músicos mais ricos de seu tempo.
A possibilidade de fama e fortuna levava muitos pais de famílias pobres a entregarem seus filhos à castração na esperança de que os jovens alcançassem o sucesso que lhes tirariam da pobreza. Como os procedimentos cirúrgicos eram muito precários, muitos morriam durante a cirurgia. O sucesso, também, não vinha para todos: enquanto alguns conseguiam papéis principais em óperas, muitos acabavam no anonimato, cantando em coros das igrejas do interior.

Por Vinícius Pereira

Crédito da Foto: Reprodução

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