Os dias estão sendo assim

Terça, 25 de Julho de 2017.



Parafraseando o tema da série da Rede Globo, sem apologia à rede manipuladora dos telespectadores brasileiros, mas simplesmente porque achei poético. Só podia sair de uma letra de música porque da realidade não seria possível extrair tamanha leveza, muito menos do cenário atual da série de acontecimentos escandalosos e assombrosos, que mais nos remetem aos suspenses clichês. A população que passa rápido nas roletas e rodas vivas do cotidiano não desfruta de tempo atento. Estão pestanejando nos mínimos momentos entre um metrô e outro, uma refeição e outra, uma informação vaga aqui, comentários e piadas ali e um temor nebuloso em todas as instâncias. O preocupante não é a inflação, o desemprego e arrochos salariais somente, mas as perspectivas sombrias, o jogo de xadrez onde as peças ainda não foram tiradas da caixa eleitoral para presidente em 2018 e a fonte da corrupção disfarçada por um sistema governado por um poder insustentável, cujas manobras encontram-se incólumes. Ainda, infelizmente... Mas não cabe a mim escarafunchar demais aqui esse duelo entre o legislativo e executivo. As previsões para o cenário eleitoral de 2018 não são as melhores, principalmente em se tratando de financiamento de campanhas. Sem contar com o fato preocupante da maioria dos possíveis candidatos estarem inseridos no hall das denúncias e corrupções, o que é tenso. Os dias eram assim...um golpe histórico nos roubou os direitos civis de nos manifestarmos como artistas, mulheres, homossexuais, ciganos, poetas, jornalistas, índios, latifundiários, professores, universitários, negros e esquerdistas de vanguarda. Desapareceram sonhos, ideais foram massacrados, ditaram regimes e cercaram a sociedade que clamou e lutou pela democracia ainda menina nesse país. Conquistamos muito e avançamos pouco. Estamos presenciando um retrocesso dos direitos conquistados banhados de vermelho.
Faltando pouco para elegermos um presidente, o país está sublimado em suas esperanças, que espero não sejam vãs. As peças do jogo que estão à mostra é de partidos entrelaçados por processos e delações. Chamam de premiadas, mas quem carrega o peso do troféu que furou o bolso é a população, que transita feito zumbis urbanos morrendo na contra mão e atrapalhando o tráfego dos poderosos. A burguesia dominante voltando a feder e uma minoria ainda acreditando em passos bêbados que haverá solução diante do que temos. Um PSDB feito moça de salto mantendo a pose de salvadora com uma solução plausível escondida na manga. Um PMDB desmoralizado e decadente, o PT perseguido e denunciado até onde não existem provas e um tanto de bancadas e partidos inúteis iludindo um eleitorado desesperado em nome da fé no que virá. A saída então pode ser um "outsider"? Depois de tantos personagens que fizeram nossa história? Um outsider, que é aquele que vem do exterior, neutro e com um curriculum de ponta no quesito economia e política.
"Saudade do tempo em que pedalada era crime de responsabilidade." Disse Carlos Ranulfo Melo, professor titular do Departamento de Ciência e Política da UFMG à revista EXAME. Isso a respeito das previsões no início de deste ano, acrescentando ainda que a crise não passará em 2017, quiçá sabemos quando, pois haverão ainda temerosas transações para 2018.
Será que haverá chance de reconstruirmos os dias que já foram assim?
Dependerá muito da Lava Jato, do TSE, dos movimentos civis e das ruas, que espero estejam liberadas para receberem nossas vozes. O voto direto em 2018 requer escolha atenta, envolvida, debatida e ímpar. Caso contrário, os dias continuarão sendo assim...

Mônica Ribeiro
monicasaribeiro@gmail.com

Por Mônica Ribeiro

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