Os espertos do Japa

Terça, 02 de Abril de 2019.

Os espertos do Japa

O progresso incorpora novos hábitos na vida da gente. E, sem perceber, desnuda o quanto a nossa educação, os princípios éticos e morais a nós repassados, se portam diante de sua grandeza. Subir de carro um viaduto foi a primeira das novidades. E fomos aprovados nas subidas, e apressadamente reprovados nas descidas onde aceleramos acima da velocidade permitida.
Depois, vieram as faixas dos pedestres, pintadas nos principais cruzamentos, dando-lhes preferência aos carros. Nesta empatamos. Uns param, outros nem aí. Logo a seguir vieram as escadas rolantes, o Cinema 3 D, a Jade Barbosa e a Daniele Hipólito almoçando na Casa da Sogra, a Ana Botafogo, a bailarina nº do Teatro Municipal, se misturando no meio da gente para se exibir no Festival de Dança, o Grupo Galpão, o maior do país, circulando no Olga Sola para se apresentar no Festival de Teatro. Três Rios, em curto espaço de tempo, se revestiu de um pouco do mundo e como estamos nos portando diante deste novo mundo?
No ultimo sábado, nos deparamos com a última das novidades de uma cidade progressista: fila para se ter direito a uma mesa em um restaurante. Entre orgulhosos pelo sucesso de um novo point gastronômico, e impacientes por jamais ter enfrentado algo parecido no Bar Ideal, do Vica’s, Imperial, Zebrinha ou Choupana, aguardamos com esposa, filhos e convidados nossa vez no Japa. Este bonito e confortável restaurante japonês erguido na Av. Alberto Lavinas.
Como a fila era novidade, não havia regra pré-estabelecida. Ou senhas, como na Potência do Sul, em Juiz de Fora, na Churrascaria Majórica, em Petrópolis. Era no olhar, na vez, na cumplicidade e na educação. Aí um casal, à nossa frente, pediu a conta. E o marido levantou um braço para chamar o garçom e o outro, pouco discreto, convidando um casal de amigos posicionados em quinto lugar no grid de sentada.
Eles se aproximaram e bateram um papo ridículo, pagaram a conta e repassaram, em alguns segundos, as disputadas cadeiras. Furaram a fila e debocharam da cara da gente. Lidar com o novo pode ser complicado, mas expor traços de subdesenvolvimento a luz do luar pode ser cruel para o conceito da gente.
Triste, então, se tornou aquele sábado cujos espertos burlaram simples regras de convívio, estragando uma noite feita sob medida para o exercício da cordialidade. Porque ninguém vai tirar da cabeça dos nossos convidados da cidade maravilhosa que nosso progresso não fora capaz de se atrelar à educação. Mostrar a eles, e quem mais nos visitar, que nos livramos dos grupos de extermínio, dos incêndios premeditados, dos políticos que precisavam engessar seus pés para se tornarem vítimas a ganharem votos-simpatias, outros que dirigiam uma ambulância expondo o descaso das autoridades com a saúde, das rifas que jamais saíram e, portanto, achávamos que os espertos, os sabidos, não sobreviveriam mais por aqui.
Há algum tempo o país elegeu a corrupção como o grande mal a ser combatido. Mas para evitar novos assaltos à Petrobras, será preciso, primeiro, conter o ímpeto de uma parcela que adora subtrair preceitos que emanam das autoridades constituídas.
Lesar regras básicas, obrigações conhecidas por leis, naturais que sejam, porque nas menores concessões estão expostas as portas das grandes corrupções. Mesmo as mais simples, como tomar um lugar que não é seu numa mesa que deveria servir comida oriental. Não exportar um gesto de uma decepção local.


Por José Roberto Lopes Padilha

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