Os Galinheiros

Terça, 12 de Fevereiro de 2019.

Os Galinheiros

Moro em Três Rios e lá na casa dos meus pais, onde crescemos, tinha um galinheiro. Galos, galinhas e pintinhos faziam parte do fundo do quintal da gente. E no domingo, porque carne só era servida no prato no final da semana, uma matriarca, com nome e tudo, era eleita para o abate. E tinha galinha ao molho pardo no prato principal que reunia toda a família.
Lá no nosso clube, o América FC, havia um outro galinheiro em nossa escolinha de futebol. Ele jogava no gol e vez por outra passava um franguinho entre suas pernas. Era um local aprazível, cheio de gramas, protegido não com telas, mas com arames fortes que chamavam de alambrado. Não eram mais milhos que jogavam para os pintinhos, eram bolas de futebol que nós, os meninos, vivíamos a correr atrás sob o comando de um senhor com um apito na boca. Quando um garoto estava no ponto, forte e habilidoso, era convidado a entrar num ônibus e ir treinar no Botafogo. Ou no Flamengo. Os que ficavam, lotavam os estádios atuando no clássico América x Entrerriense, um programa obrigatório antes da santa missa. Os artilheiros saíam de lá casados. Os galinheiros, e as escolinhas, alimentavam o estomago e as paixões dos trirrienses.
Hoje, não tem mais um só galinheiro por aqui. Tanta gente para ser alimentada no Brasil e na China, que levaram toda a espécie para viver num campo de crescimento e fertilização da Sadia, da Perdigão e da Seara em Santa Catarina. Por lá, nascem comendo ração e hormônios e passam do estágio de crianças à adultos sem conhecer a juventude. Quando chegam ao prato da gente são ainda pintinhos marombados com agrotóxicos e sérios causadores de câncer.
E deram também um jeito de desaparecer com os galinheiros da bola porque veio a especulação imobiliária e transformou os gramados em concreto armado. E foram além, fecharam as ligas barbantes que organizavam os campeonatos e agora só resta aos meninos, das 92 cidades fluminenses, partirem para os campos de concentração de Xerém, Ninho do Urubu, General Severiano e São Januário.
Por lá, são trancafiados em containers, ganham massa muscular e tomam Whey Protein no café da manhã porque necessitam segundo seus empresários, como os pintinhos, estarem no ponto para serem vendidos ainda meninos. E muitos não resistem às temperaturas elevadas junto a falta de espaço, o tamanho cruel da disputa nas peneiras, as saudades dos pais, das professoras e das namoradas.
Não queria muito não, apenas que devolvessem aos pintinhos e aos meus netos, porque aos meus filhos ainda mostrei as fotos, seu tempo cronológico de amadurecimento, estudo, aprendizado e almoço domingo em família. Meu país não pode continuar a crescer sem respeitar quem os alimenta, e quem os representa na sua maior expressão esportiva, retirando-lhes, pela ganância e o lucro desmedido, a parte mais bonita da sua história que é a adolescência. Às vezes, por uma fatalidade, até suas vidas.

Por José Roberto Lopes Padilha

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