Os mecanismos da resistência bacteriana

Quarta, 29 de Novembro de 2017.

O fenômeno é observado desde a disseminação do uso de antibiótico (antimicrobianos), durante a Segunda Guerra Mundial, e torna-se mais intenso a cada ano que passa. É necessário compreender os mecanismos de transmissões da resistência bacteriana, e é, essencial no combate do problema e o mal uso dos antibióticos, que é a causa principal.
Alexandre Fleming descobriu o primeiro antibiótico "a penicilina" em 1929, em hospital de Londres, ao notar que a presença de um fungo, o Penicillium notatum, inibia o crescimento das culturas de estafilococos (microorganismos). Durante a Segunda Guerra Mundial, a penicilina foi usada extensivamente no combate às infecções dos soldados feridos. com o uso do novo fármaco, logo foram descritas bactérias resistentes que produziam penicilinase, atualmente chamadas de beta lactamase.
Essas bactérias sobreviviam à antibioticoterapia na dose preconizada e somente altas concentrações do fármaco tratavam a infecção, mas estas eram tóxicas ao paciente. As cepas de staphylococcus aureus se tornaram cada vez mais resistentes com o uso de antibiótico. em 1946, apenas 5% dessas bactérias produziam beta lactamase. Atualmente, estima-se que mais de 90% das cepas staphylococcus aureus sejam produtoras da enzima beta lactamase, reduziu o uso da penicilina.
As bactérias (microorganismos) são classificadas em resistentes ou sensíveis de acordo com os dados de concentração mínima inibitória (MIC) e de concentração mínima bacteriana (CBM). As resistentes são aquelas cujo crescimento in vitro se é inibida por concentrações do fármaco superiores às utilizadas in vitro. Esses dados não são relevantes em si mesmos, porém, visto que o êxito da terapia depende de outros fatores como a capacidade do fármaco atingir e a resposta imunológica do paciente. Uma bactéria pode ser sensível a um antibiótico específico, mas não fazer efeito dependendo do local da infecção. Por exemplo, no caso de infecção no pulmão, um fármaco pode ser inativado pelo surfactante pulmonar. "Não adianta a bactéria ser sensível se o antibiótico sofre inativação no caminho e não chega ao sítio da infecção. O médico deve dominar a farmacodinâmica e a farmacocinética dos medicamentos, pois o antibiograma é uma importante ferramenta auxiliar da clínica médica.
A resistência microbiana a determinado fármaco pode ser classificada como intrínseca ou adquirida. A primeira faz parte das características naturais do microorganismo e é transmitida verticalmente á prole, como herança genética. Exemplo: um antibiótico que inibe a síntese da parede celular só seria efetivo contra bactérias que apresentem parede celular. Seu uso estaria assim, contraindicado às infecções causadas por micoplasma, que são microorganismos desprovidos de parede celular5.
Já a resistência adquirida representa uma característica nova, que diferencia a bactéria da sua progenitora, o que explica porque as células progenitoras de uma mesma espécie podem ser sensíveis ao antibiótico e suas filhas expressarem resistência. Tal mecanismo é resultante das alterações estruturais e/ou bioquímicas na bactéria, determinadas por mudanças genéticas cromossômicas ou extracromossômicas (plasmídeos). É por isso que precisamos lembrar que os antibióticos não são agentes mutagênicos, mas aumentam a pressão seletiva quando entram em contato com o microorganismo, porque levam á morte os que lhe são sensíveis, mas fortalecem os resistentes que sobrevivem e se multiplicam. O uso frequente de antibióticos favorecem esses processos, fazendo com que os microorganismos resistentes se tornem a maioria, o que é um problema para o paciente. As bactérias resistentes disseminam os seus genes entre bactérias que não são , necessariamente, do mesmo gênero ou da mesma espécie. "Os genes de resistência não estão apenas nas bactérias patogênicas". Ao contrário do que se possa imaginar, as bactérias da microbiota normal são as que carregam maior quantidade desses genes.
Compreender os mecanismos de transmissão da resistência é parte do combate ao problema. os genes de resistência podem ser transferidos de uma bactéria para outra por transformação, transdução, conjugação e transposição. A transformação ocorre após a lise de um determinado microorganismo (bactéria ou bacteriófago), quando seu material genético é liberado para o meio e outras bactérias são capazes de incorporar esse DNA externo. Tal mecanismo tem pouco impacto clínico, porque exige que a bactéria receptora tenha proteínas de membrana favoráveis á passagem do DNA.
Na transmissão, um bacteriófago (vírus, parasita de bactéria), atua como vetor da transmissão do DNA bacteriano cromossomial ou de plasmídeo da bactéria. Quando ocorre a lise da bactéria infectada pelo bacteriófago, os novos vírus infectarão outras bactérias, introduzindo nelas genes de resistências aos fármacos. O mecanismo é observado na transferência de plasmídieos R (de resistência) entre os staphylococcus aureus e o streptococcus pyogenes.
A transmissão por conjugação ocorre durante o contato bactéria-bactéria, em que a doadora transfere material genético à receptora por meio de fímbrias ou pili sexuais. A bactéria com essa habilidade é portadora de um segmento de DNA de fita dupla, autorreplicantes chamado plasmídieo F ou conjugativo, que tem capacidade de passar pelo canal proteico das fímbrias. Trata-se do processo de disseminação da resistência bacteriana mais frequente.
Na transposição, os segmentos curtos de DNA (acido desoxirribonucleico), denominam transposons, que não têm capacidade autorreplicativa, saltam dentro da célula, unindo-se a plasmídeos, cromossomos e bacteriófagos para conseguir replicar. Durante esses saltos, podem incorporar genes de resistência ao DNA.
A expressão dos genes de resistência pode causar produção de enzimas inativadoras dos fármacos (exemplo: carbapenemases, beta lactamase) interferência na entrada e no acúmulo do fármaco na bactéria, alteração no receptor do medicamento ou surgimento de uma via metabólica alternativa para bombeamento do fármaco para fora da bactéria (metabolic bypass). São os meios de viabilizam a resistência.
É necessário o cuidado e atenção do emprego indiscriminado dos antibióticos, porque hoje em dia muitas bactérias estão resistentes aos antimicrobianos. Nunca façam uso de antibióticos sem a orientação médica.

Por Dr. Eneas Zandomênico

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