Paralelos da sociedade dos iguais e dos menos iguais

Sábado, 27 de Janeiro de 2018.

O país imaginário criado por Thomas Morus, escritor inglês (1480-1535), teria um governo organizado de forma a proporcionar ótimas condições de vida a um povo equilibrado e feliz, nem de longe corresponde ao que se pode perceber no Brasil, tanto de agora quanto do que detectamos nos seus registros históricos.Em desacordo com o narrado no Artigo 5º da Constituição Federal do Brasil, onde se lê: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”, nossa realidade se caracteriza pelo seu perfil excludente. Aqui, sempre prevaleceu o modelo de sociedade desigual, cuja população se divide entre os poucos muito ricos e a maioria que amarga sobrevida em péssimas condições de saúde, educação, saneamento, segurança, ofertadas pelas conjunturas públicas.
Eis as razões para ocorrência de tantos conflitos sociais, indicativos da insatisfação geral da sociedade com desperdícios e privilégios e com as precárias condições dos serviços públicos, quando se deveria respeitar o princípio da igualdade determinado pela mais alta das nossas leis. Por mais desafiadora que possa ser a dificuldade enfrentada por cada pessoa, a ninguém cabe o direito de pagar com a mesma moeda, tampouco, os meios não justificam os fins. Afinal, os meios ou instrumentos escolhidos para conquistar objetivos determinados revelam a natureza de quem os escolheu tanto quanto o próprio objetivo pretendido. Direitos à vida, diariamente, ameaçados, violados, usurpados dos cidadãos brasileiros, justamente dos mais vulneráveis no jogo dos menos iguais.
Nessa linha de raciocínio, nada justificaria a onda de assaltos que se tem praticado nas cidades brasileiras, muitos deixando vítimas com graves lesões físicas e traumas emocionais que requerem atendimentos na rede pública de saúde, esta, desprovida até mesmo de insumos básicos, com equipes inteiras se desfazendo pela absoluta desorganização e gestão ineficiente, quando não envolvida em escândalos de atos ilícitos e corrupção. Todos estamos no mesmo barco, mesmo que alguns ainda possam apertar orçamentos domésticos e arcar com despesas de planos de saúde, porque abrem mão de outras formas de vida com prazer, conforto e bem-estar, e vivem amedrontados diante da hipótese de serem atendidos na caótica rede de serviços públicos de saúde. Outros que cortam até a raiz e assumem tarefas/jornadas de trabalho complementares para manter seus filhos estudando na rede privada, já que as escolas da rede pública de ensino não garantem boa qualidade nos serviços que prestam à sociedade.
Ademais, os elevados índices de violência urbana e os frequentes roubos de cargas, evidenciam o caminho mais curto para o consumo de bens materiais, porém, muito maiores riscos de, como daqueles que praticam roubos diversos, serem encarcerados em nossos presídios, passagens sem escala para nossos infernos materializados, sobremaneira insalubres, violentos, superlotados, onde se digladiam com rivais de outras facções criminosas. A todo momento o sistema carcerário brasileiro dá sinais de que está no limite, dominado pela criminalidade organizada, sem que as instituições tomem iniciativas para mudar sua estrutura. Embora tenhamos de reconhecer que as suas condições são sub-humanas, também são as que servem à sociedade extramuros do sistema carcerário devido à escassez de financiamento público de serviços que deveriam atender às demandas da maioria da nossa sociedade. Num outro extremo resistem ilhas de privilégios, que há muito deveriam ter sido extintas, sem que isso ocorra, com que autoridade moral nossos líderes, gigantes de pés de barro, podem determinar agendas de prioridades?
A verdadeira razão para o desequilíbrio da sociedade brasileira está estampada na recente revelação da revista americana "Forbes" e nas informações sobre a riqueza em escala global de relatórios do banco CreditSuisse. Apenas cinco bilionários brasileiros têm um patrimônio equivalente ao que tem a metade mais pobre da população do país. Juntos, detém o mesmo que cerca de 100 milhões de brasileiros. Fruto do trabalho, esforço e empenho pessoal de cada um, ou objeto de extorsão e apropriação ilícita, seja lá como for não nos cabe julgar seu uso e destinação. Como bem destacado por Allan Kardec, no Evangelho segundo o Espiritismo, abordando a violência e o egoísmo: “Permite Deus que entre vós se achem grandes criminosos, para que vos sirvam de ensinamento. Começai vós por dar o exemplo; sede caridosos para com todos indistintamente; esforçai-vos por não atentar nos que vos olham com desdém e deixai a Deus o encargo de fazer toda a justiça; a Deus que todos os dias separa, no seu Reino, o joio do trigo. O egoísmo é a negação da caridade. Ora, sem a caridade não haverá descanso para a sociedade humana”. Finalizando, diria que a escolha é sempre nossa, então, que arquemos com suas consequências.

Por Dr. Willian Machado

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