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Pelo direito de nos despedir

Quinta, 18 de Junho de 2020.

  Pelo direito de nos despedir Desculpe, Eunice, minha amiga mais do que querida, cúmplice ideológica, parceira de passeata, panfletagens, de uma gentileza sem precedentes sempre postada acima dos valores que nossos textos mereciam.
Eunice esposa do Carlinhos, trabalhadora incansável de Furnas, mãe dessas adoráveis meninas, avó coruja, como lamento não ter tido a oportunidade de despedir de você.
Se há uma pontinha a mais de crueldade nesse novo inimigo, é que ele não nos dá o direito de nos aproximar em prece, derramar lágrimas, fazer orações por aqueles que vitimou, e nos roubou, tão preciosas companhias.
Ainda fez pior o covarde do Covid: ao positivar os próximos, sequer uma abraço apertado na Tatiana, a amiga fiel das minha filhas, madrinha dos meus netos, nos foi permitido.
Não há precedentes na História. O ritual de celebrar a partida sempre foi cultuado pela humanidade através de ritos ainda mais respeitosos dos que celebravam a chegada.
Indígenas lançavam o corpo num lago em um jangada coberta de flores que, com fogo nas extremidades, ia cremando uma existência natureza afora.
Os americanos realizam um silenciosa recepção, os brasileiros se atiram às ruas, formam filas, acompanham seus ídolos, como Aírton Senna, fazendo questão de devolver cada domingo daqueles que nos preencheu de alegria.
Que inflou a auto estima de um povo cansado de largar sempre nas últimas fileiras da igualdade social.
Sendo assim, minha amiga, resta a este escritor seu amigo um papel em branco no lugar do lenço, uma caneta a tentar se despedir com tintas, que levará ao computador, ganhará nosso face para dizer a você, em nome de todos os privilegiados que lhe conheceram, o quanto você foi importante pra gente.
Talvez nem a missa de 7º Dia possamos nos reunir para canalizar nossas preces, energizar orações, pois o que era culto virou aglomeração. A pandemia roubou até nossas sagradas liturgias.
O que era vida ficou sem graça quando tiram da gente aqueles que nos ofereciam, como você, as maiores graças por viver.
Descanse em paz, minha amiga. E obrigado por você ter sido o que foi, uma grande, nobre e inesquecível mulher.

Por José Roberto Lopes Padilha