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Perfume de Mulher

Quarta, 01 de Abril de 2020.

  Perfume de Mulher Agradeço a minha irmã, a Jane, por não ter desperdiçado completamente tantas idas a França quando mal conhecia São Paulo. Jogador de futebol é mesmo assim, muita bola e pouca cultura, pelo menos começando sua carreira. Ao viver no mundo de Bob, ler Contigo e Tio Patinhas, no lugar de ir ao Louvre ver de perto a Mona Lisa, tantas vezes quanto o Fluminense disputasse o Torneio de Paris, nosso grupo preferia embarcar em um “roteiro cultural” que incluía uma ida ao Lido ver mulher pelada. Rodar a tarde toda pela Galaria Lafayete e entrar na fila do cinema para assistir Silvia Kristel, em Emanuelle.
Além, é claro, de tirar tantas fotos na Torre Eiffel quantas caberiam no rolo de fita da nossa Kodak. Mas minha irmã me encomendara um perfume: Joy, de Jean Patou. E acabei trazendo de lá, entre discos do Black Sabbath e pôsteres da F1, as recordações da loja mais cheirosa do mundo: Opera Chic. E, de quebra, um Moustache, de Rochas, para mim.
E, com o tempo, percebi que se a cereja finalizava o bolo, o perfume fechava a sedução. Pouco adiantava o mais sensual dos vestidos, a maquiagem perfeita, os cabelos saindo do escovão se Fleur de Rocaille, de Caron, não deixasse no ar rastro de descaminhos. O GPS das trilhas da perdição.
Lembrava disto em um restaurante ao reparar dois casais na mesa ao lado. Muitos jovens, mal tocaram nas batatas fritas. Era uma mão no copo, outra no celular. No pouco tempo em que lá permanecemos, sequer deram as mãos. E pela distancia que os braços impunham para digitarem mais rápido, não tinha espaço para os abraços. Não, não tinha chegado o coronavírus como desculpas para tal isolamento.
Tantos aplicativos inventaram, que casais podem sair juntos e trocar mil idéias, realizar projetos, até marcar o casamento. Sem se tocar. Ficarem sabendo da vida do outro, suas preferências, paixões, conhecerem a família por fotos no Instagram. Sem sequer se falar.
Mal sabiam que o perfume é algo tão incrível que mesmo que alguém queira imitar o seu cheiro, a mesma fragrância tem um odor único em cada pessoa que o usa. Como resistiriam, caso se perfumassem, a sua sensação de charme e sensualidade? Ele tem um certo poder, um mistério, uma forma pessoal de identificação.
Nossa mesa, embora ao lado, não alcançava qualquer essência no ar. O vento, contra, não ajudava. Será que um deles estaria perfumado? Porque o Facebook, Youtub, Google e todo os gênios do Vale do Silício já colocaram todos os recursos possíveis dentro daqueles aparelhos. Só ainda não conseguiram que exalassem perfumes.
O Boticário e outras perfumarias, porém, estiveram abertas o dia inteiro. Não havia desculpas porque foi erguida uma perfumada ilha na trilha dos que procuram um vestido na Emotion, um tênis para a malhação na Luman, uma joia na Silvia Estima ou uma sandália na Melissa. Era o Dia Internacional da Mulher e, para o azar daquele casal que mal se tocou, e alívio dos últimos românticos que aprenderam a harmonizá-los com suas taças de vinho, ele ainda não foi retirado de cena. Ou do shopping.
A sedução, esta sim, está seriamente ameaçada de sair do cardápio das futuras gerações. Que vão procurar, perante poucas inspirações, razões para se envolver após o zap, o jantar, o licor e a sobremesa.

Por José Roberto Lopes Padilha

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