Por favor, parem, agora!

Sábado, 04 de Maio de 2019.

Por favor, parem, agora!

Mal passou a semana santa dos esforços reprisados de Jesus Cristo, e os homens trataram de subestimar o seu legado. Esqueceram, mais uma vez, que todos os exércitos, frotas, parlamentos, monarquias absolutistas já exerceram por aqui o seu domínio. E, todos juntos, não influíram tão poderosamente na vida da humanidade como fez este personagem imortal. Sem uma só arma na mão em punho. Usando apenas a palavra. E saíram, dias após dias, pelas ruas da Venezuela passando com os tanques por cima dos manifestantes. Em Brasília, em defesa dos eternos privilégios dos que comandam fuzis, jatos e torpedeiros na falsa busca da reforma da previdência.
E, em uma agência do INSS, em Três Rios, às 12h30, armado até os dentes com as balas da arrogância, usando calibres de autoritarismo que o detector de metais, infelizmente, não conseguiu deter, um político trirriense com a carteirinha do mandato vencida, entrou naquela agência, que deveria acolher o direito do trabalhador, e não sobrecarrega-lo com pedras da burocracia a erguer obstáculos em seu justo caminho para a aposentadoria, carregando rastros de clientelismo. De favores a granel com uma “cliente” a tiracolo. Certamente, uma potencial futura eleitora.
E, desconhecendo completamente a fila, sequer parou na recepção para solicitar, como todos nós, uma senha. Foi para cima do guarda, que dignamente exercia outros papéis além da segurança, dando informações, sendo áudio do painel de informações, com ares superados da outrora senha da ditadura. Não era “Abre-te Sésamo!”, que pedia. Era: “Sabes com quem está falando?”
Poderia até receber o voto da senhora que levava carregando pilhas de papéis, mas diante do repúdio silencioso dos que aguardavam a vez, e éramos dezesseis com mais de uma hora por lá, certamente nem a síndico do seu prédio terá chances no próximo pleito. O pior é que foi recebido na frente de todos, e fez questão de dizer bem alto ao carregado ambiente, que ele mesmo criou, que encaminhou a “marcação” por celular com um dos funcionário da agência.
Nos pequenos gestos estão embutidas as grandes corrupções. A democracia que buscamos, que levou nossas solas de sapato em prol da Anistia, arranhou nossas cordas vocais buscando as Diretas Já, não pode, neste momento de omissão coletiva, aceitar que nos roubem direitos humanos arduamente conquistados. Dos mais simples, como entrar na fila, até os que levam os norte-americanos a intervir, em sua busca insana pelo petróleo, na soberania dos nossos vizinhos. Sair às ruas contra a reforma e levantar da cadeira daquela agência e começar a gritar, como Wanderléa, a musa da Jovem Guarda: “Por favor, parem, agora!”.
Foi aí que recebi um conselho de quem estava ao meu lado. E que gosta muito mais de mim do que os atos daquele político assistencialista com posturas ultrapassadas: “Sossega aí. Deixa de ser polêmico!”. E, ao deixar aquela agência com sua imoral e antiética intervenção resolvida, ele deixou no ar, e nos os ares de um país tropical, a visão de um longo caminho que ainda temos que percorrer para sermos um povo justo, leal, cordial, feliz e que detesta levar vantagem tudo, certo? Errado.

Por José Roberto Lopes Padilha

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