Por que nos deixamos passar por sociedadedesprovida de consciência cidadã?

Sábado, 09 de Junho de 2018.

Nossa jovem democracia ainda caminha em ritmo letárgico, desinteressada, engessada em dificuldades que não se justificam, deixando marcas de alienação que a história nos cobrará, denunciando-nos geração despolitizada, desconexa, que a tudo aceitou, incapaz de reagir munida de argumentação consistente, pacífica, guardiã e defensora do bem-estar coletivo. Basta que olhemos para outras sociedades com similar idade cronológica em regime democrático para que constatemos nossos atrasos, nossas reiteradas dificuldades para compreender que avanços de natureza social jamais nos chegam sem que empenhemos esforços. Consciência de que formamos um único corpo social, e o que afeta alguns em determinado período histórico, se não questionado, socialmente refletido, analisado à luz de perspectivas democráticas, transformadoras, tem tudo para ser ampliado e comprometer a todos, particularmente, quando se trata de eventos de caráter negativo. A propósito, raros os episódios positivos que podemos contabilizar favoráveis à maioria da população, quando não se desenvolve o hábito de questionar os acontecimentos na origem, fatos distorsivos da divisão e destinação adequada de recursos oriundos do patrimônio público, que tanto nos causa indignação.
Em ano eleitoral e de copa do mundo de futebol tendemos a fraquejar ainda mais, incrédulos com o que se nos apresenta no cenário e candidatos aos cargos eletivos em geral, ou absortos pelas paixões do brasileiro ante possibilidades de vitórias da seleção nos estádios da Rússia. Ocasiões propícias para aprovação de pacotes de maldades para a população, maquiavelicamente arquitetados nos bastidores e labirintos das casas legislativas das três esferas de poder, onde nossos representantes tomam de assalto parte ainda maior do que nos resta em recursos para viver nessa nossa sociedade tão desigual. Insatisfeitos com o que já nos abocanham sem equivalente contrapartida em termos de serviços públicos, lutam cegamente para ampliar seus domínios, indiferentes aos reflexos que possam acarretar para a maioria, menos favorecida.
Os efeitos da greve dos caminhoneiros não foram suficientes para lembrarmos que o poder emana do povo, como escrito na nossa Constituição. Por que temos de aceitar que um deputado federal nos custa R$ 179.000,000 por mês, e os atuais 513 deputados federais, em média, R$ 9,8 milhões, todo mês, ou R$ 1,1 bilhão por ano? Somos realmente incapazes de lutar para reduzir à metade o plenário da Câmara dos Deputados? Mesmo que isso implique na possibilidade de maiores recursos para aplicar na Atenção Básica de Saúde, onde está faltando tudo desde materiais e equipamentos essenciais aos procedimentos de rotina no atendimento à população, medicamentos de uso regular para idosos com doenças crônicas nãotransmissíveis, como diabetes e hipertensão arterial? A trágica situação de desabastecimento das Unidades Básicas de Saúde pode ser constatada a todo instante, basta que se visite algumas delas nos nossos 5.570 Municípios. Ademais, não há quem em sã consciência concorde em pagar para que cada deputado federal tenha 25 assessores, a custo exorbitante, tal qual que tenhamos de pagar despesas com seus motoristas particulares, com a frota de carros de luxo que os servem, suas passagens aéreas, estadias em hotéis de luxo, durante período dos seus questionáveis cursos de atualização realizados nas principais cidades turísticas do mundo, além de inúmeros outros benefícios. Contrastando com a falta de recursos para suprir de materiais, equipamentos, equipes profissionais e de apoio nos hospitais, ou nas sucateadas instituições de ensino e pesquisa da gestão pública federal.
Tanto quanto indigesto o fato de termos de arcar com vultuosos custos orçamentários do Senado Federal. Levantamento da ONG Transparência Brasil revela que o Senado é a Casa legislativa que tem o orçamento mais confortável por legislador, são R$ 2,7 bilhões anuais, o que corresponde a R$ 33,4 milhões para cada um dos 81 senadores. Dentre seus nababescosbenefícios chama-nos atenção o plano de saúde ilimitado e vitalício, extensivo aos cônjuges e filhos, tudinho pago por nós, contribuintes e cidadãos brasileiros. Dados do Portal Transparência do Senado revelam a existência de mais de 3 mil funcionários lotados em gabinetes de senadores ou escritórios de representação. Como se não bastasse, ainda pagamos despesas com seus motoristas, garantimos a renovação periódica da frota de carros de luxo do senado, suas passagens aéreas na classe executiva ou primeira classe, estadias em hotéis de luxo, entre muitos outros aviltes. Mesmo desfalcados do fruto do nosso trabalho, temos de economizar para pagar plano de saúde porque os serviços públicos são de péssima qualidade, por segurança pessoal/familiar para nos livrar da violência urbana e rural, escolas particulares para nossos filhos, considerando as precárias condições do ensino na rede pública.
Definitivamente, este não é o Brasil que queremos, mas o país em que as autoridades fazem o que melhor lhes possam saciar as ambições, posto que nos julgam bandos incapazes de reagir aos seus insensatos desmandos e abusos de toda ordem. Precisamos nos tornar organizados, a ponto de não mais tolerar atos que favorecem minorias privilegiadas, exigindo direito constitucional de viver em sociedade igualitária, onde não mais se ouçam ameaças de redução no salário mínimo para cobrir seus rombos, mas que se discutam e executem cortes em privilégios respaldados por leis manchadas com suor e lágrimas do povo.
Wiliam Machado

Por Wilson Tavares

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