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Quem perdeu a decisão foi o jornalismo

Terça, 14 de Julho de 2020.

  Quem perdeu a decisão foi o jornalismo Seja qual for o resultado da próxima quarta-feira, o grande derrotado nas finais do estadual já foi declarado: o jornalismo esportivo carioca. Porque a exclusividade das transmissões não era exclusivo do universo dos torcedores que, como eu, as assistiram. E por um punhado de moedas rubro-negras e tricolores, conhecidos narradores e comentaristas subestimaram a isenção clubista que deveriam assumir junto ao microfone. Do jeito que é regida e pautada, ética e moralmente, a nossa profissão.
Se fizeram faculdade, pisaram na história de José Carlos Araújo, da Rádio Globo, que só os mais íntimos sabiam que torcia pelo Fluminense. Sua imparcialidade, como a que herdou de Waldir Amaral e Jorge Curi, foi desprezada quando pseudos jornalistas se prestam a virar torcedores em meio ao equilíbrio com que deveriam analisar as partidas.
Hoje, na FluTV, os vendilhões da credibilidade da nossa profissão não gritaram gol do Michael quando o Flamengo virou a partida. Reclamaram que o Egídio chegou atrasado e que o treinador havia pedido para que tomassem cuidado com os contra-ataques. E nem da lentidão do Digão na jogada, percebida até pela minha gata, a Liz, não foram capazes de comentar a respeito.
Já a FlaTV, que recorri depois para rever os melhores momentos, simplesmente não passou o gol tricolor em seu resumo. Como se ele não existisse. Era um 2x1 dentro de um compacto em que só Flamengo marcou os gols. É muita cara-de-pau! Um tapa na cara no elevado nível de credibilidade que o jornalismo esportivo tanto tem buscado.
Nos anos 60 e 70, o país teve o privilégio de ter ao lado do seu futebol-arte uma imprensa esportiva arte. Dramaturgos consagrados, como Nelson Rodrigues, tinham sua coluna no futebol. Mesmo jamais tendo negado seu paixão tricolor, era lido por todos porque sua intelectualidade não se confundia com fanatismo. Apenas, ironia, mística, cultura, a ponto de explicar que o Fla e o Flu eram dois irmãos Karamazov. Aí o torcedor tinha que ler, pelo menos o resumo, da obra de Dostoiévsk. Que luxo, não? Arthur da Távola tinha a sua. E até Veríssimo nos dava prazer de escrever sobre os rumos da bola.
João Saldanha, Sandro Moreira e o Mestre Armando Nogueira jamais negaram suas paixões pelo Botafogo. Mas eram inteligentes o suficiente para saber que o alvinegro sozinho jamais seria um grande clube se não tivesse adversários tão fortes como ele. O pior jogo da história do Botafogo foi a final da Copa do Brasil contra o Juventude. Desde a Praça da Bandeira, onde carros se confraternizavam, não zoavam uns dos outros, depois nas gerais, arquibancadas e cadeiras do Maracanã, só tinha torcedores do Botafogo. Sem rivalidade, brigaram entre si dentro e fora de campo, e o Juventude levou o caneco para o sul. Ali, sim, nasceu e morreu o BotaTV.
Confundiram jogo de torcida única com transmissão única. Quebraram recordes de visualizações, ganharam dinheiro, venderam o patrocínio da nova Puro Malte da Brahma, e estão contando em arrecadar muito mais daqui pra frente. Cartolas pensarem assim, tudo bem. São desconhecidos passageiros nas poltronas de suas gestões e depois do mandato voltam para as suas profissões.
Porém, os profissionais que trabalham no país do futebol, que vivem da credibilidade junto aos que estão na rodoviária com seus radinhos, em casa com suas televisões, vigias que passam a madrugada escutando resenhas esportivas, não podem se prestar a um papel desses. De negar o que estão vendo, se calar diante de um gol tão bonito, transmitir o que o bolso fala acima do que o coração sente.
Deveriam ter vergonha na cara e rasgar suas carteiras. Porque a moral já perderam antes de saber quem será o vencedor.

Por José Roberto Lopes Padilha