Resultado das Eleições 2018: lições das urnas

Sexta, 12 de Outubro de 2018.

Um conhecido dito popular no Brasil diz que “a voz do povo é a voz de Deus”. Apesar disso, esse ditado não pode ser levado sempre ao pé da letra. Basta lembrarmos o forte apoio popular tanto à caminhada torturante sofrida por Jesus Cristo com a cruz (via crucis) e o apoio de muitas pessoas ao quase apedrejamento sofrido por Maria Madalena- só impedido pela intervenção de Jesus Cristo, que evitou esse bárbaro assassinato e covardia. Esses dois exemplos me autorizam a defender que NEM SEMPRE A VOZ DO POVO É A VOZ DE DEUS. Muitas vezes, a vontade de popular pode distanciar-se dos valores humanos mais elevados. Amor ao próximo, solidariedade, fraternidade, ser capaz de sentir a dor do outro, compaixão, a grandeza do perdão são sentimentos que andam em falta.
As eleições revelaram uma considerável complacência e apoio popular a posturas francamente retrógradas. Candidatos com posturas atrasadas e preocupantes no campo dos direitos humanos obtiveram votações expressivas. Os resultados dos candidatos mais votados às Assembleias Legislativas, Câmara e Senado Federal, além de governos estaduais e à Presidência são reveladores. Os resultados das eleições podem indicar processos preocupantes dos próximos anos da sociedade brasileira.
Ao mesmo tempo, os pontos determinantes que impactam diretamente a vida dos brasileiros mais pobres não são abordados e discutidos. Apoio dos partidos ditos contra corrupção ao presidente golpista Michel Temer quando foi denunciado por corrupção; apoio dos partidos e candidatos a Jorge Picciani, Paulo Melo e Edson Albertassi do PMDB no Rio de Janeiro; apoio de partidos à Crivella, gravado admitindo que as pessoas religiosas teriam preferência em atendimento de saúde; apoio aos projetos francamente prejudiciais aos trabalhadores e trabalhadoras, como Reforma Trabalhista e Previdenciária.
Os mesmos candidatos que escondem-se em posturas reacionárias, conservadoras sobre costumes, sexualidade e direitos reprodutivos são aqueles que aprovam a diminuição de recursos para saúde, educação, habitação popular. Quando deputados de diversos partidos atendem ao governo Temer para congelar os gastos públicos estão retirando recursos dessas áreas. Isso tem impacto direto na piora dos serviços governamentais. Os mesmo políticos, partidos e líderes religiosos que bradam contra interrupção da gravidez (aborto), contra políticas voltadas à população LGBT, contra emancipação feminina são AQUELES QUE SILENCIAM SOBRE péssimo estado da saúde pública por completa falta de recursos nos hospitais, clínicas da família. Vocês viram algum líder conservador denunciar o crime do fim do programa FÁRMACIA POPULAR? Viram algum líder reacionário criticar à falta de médicos especialistas em locais distantes? Mas todos vimos bradarem contra presença de médicos cubanos. Grande parte desses políticos que dizem-se conservadores foram grandes APOIADORES do presidente golpista Michel Temer nas duas vezes que foi denunciado. Lembremos que Temer esteve para ser afastado e foi salvo na Câmara por deputados. Agora tem a cara de pau de dizerem-se contra corrupção? Como ser contra corrupção se estiveram ao lado de Sergio Cabral, Eduardo Cunha, Jorge Piciani e a máfia do PMDB?
O que está em jogo é o tipo de sociedade que teremos. Está em curso uma agenda de votações que prejudicará fortemente os mais pobres. Reforma Trabalhista já está produzindo demissões com acordos muito ruins para os trabalhadores e trabalhadoras. A terceirização já está fazendo que pessoas sejam contratadas como pessoa jurídica (sem direitos como férias, décimo terceiro, FGTS e contribuição ao INSS).
Uma parte imensa do estrago está feito. Contudo, o jogo ainda não acabou. Estaremos nas ruas para defender as gerações presentes e futuras. Reverter isso exigirá muita luta e coragem.

Marcelo Paula de Melo é doutor em Serviço Social (UFRJ) e professor da EEFD-UFRJ

Por Marcelo Melo

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