ÚLTIMAS NOTÍCIAS
ÚLTIMAS

São José e as surpresas mobilizadoras de Deus - I

Quarta, 19 de Maio de 2021.

  “A vontade de Deus, a sua história e o seu projeto passam também através da angústia de José. Assim ele ensina-nos que ter fé em Deus inclui também acreditar que Ele pode intervir inclusive através dos nossos medos, das nossas fragilidades, da nossa fraqueza. E ensina-nos que, no meio das tempestades da vida, não devemos ter medo de deixar a Deus o timão da nossa barca. Por vezes queremos controlar tudo, mas o olhar d’Ele vê sempre mais longe”(Papa Francisco, “Patris Corde”).

Nossa vida deveria ter mais ingredientes de surpresa que de rotina. Sem surpresa não há vida, e uma “vida com sentido” deve ter este elemento de surpresa, de poder desvelar aqueles sinais de esperança que dão luz e calor a tudo o que somos e fazemos. É preciso estar atento à surpresa, rastreando o horizonte a partir da esperança do coração. Ao mesmo tempo, é preciso ter um coração preparado para acolher esta surpresa. Ela pode passar desapercebida, se estivermos imersos na rotina cansativa de nossos dias.

Muitos de nós, provavelmente, em um momento ou outro de nossa vida, já vivemos uma experiência de explosão de assombro e surpresa diante de nossa própria existência. Num determinado momento, tudo parecia enfadonho e rotineiro e, de repente, tudo é percebido como extraordinário e maravilhoso.

É como se alguém se visse afetado de um repentino ataque de assombro, que suscita humildade e agradecimento diante do milagre da vida.

É como se despertasse para ver a realidade com novos olhos, como se visse pela primeira vez coisas que estiveram aí desde sempre. Emerge uma profunda reverência diante do “Mistério”, incompreensível, mas mobilizador. E diante do “mistério”, a atitude adequada é a contemplação silenciosa, como fazem as mães, em longas horas de silêncio, cheias de assombro, diante da fragilidade de um novo ser humano.

Não é difícil imaginar o assombro de José de Nazaré, que surpreso descobre que a “vida é mais que vida”, que há sempre algo maior que o ultrapassa no emaranhado cotidiano de sua história. Uma aprendizagem vivida ao longo da vida, marcada por momentos de serenidade e paz, mas também de obscuridade e dúvida.

Os textos evangélicos afirmam claramente o conflito vivido por José. Ele viveu a experiência de uma verdadeira “noite escura”, do “silêncio de Deus”. Mais uma vez é Deus quem toma a iniciativa.

José era um pobre noivo, pertencente a uma nação oprimida e a uma categoria social esquecida, mas conservava límpidos os olhos do espírito, prontos para perceber e acolher a presença surpreendente de Deus em sua vida. Na narração de Mateus, o anjo comunica ao confuso José o mistério que está acontecendo com sua esposa Maria. Por essa revelação do anjo, José é atingido como que por um raio, é tomado de surpresa. A sua noite, o seu silêncio, o seu sono, a sua rotina diária são quebrados por uma novidade absoluta.

O que José recebe no sonho é o chamado a uma existência marcada por constantes “deslocamentos”, pois, a mulher que entrou em sua vida e vai entrar em sua casa, Maria, leva em suas entranhas Aquele que para muitos será uma presença provocativa, uma ameaça ao poder estabelecido, um transgressor das leis e normas religiosas...

A vida inteira de José, o justo, vai ficar desestabilizada a partir deste momento porque foi convidado a aproximar-se do mistério surpreendente do Deus feito homem. Exteriormente, o mundo permanece como estava, aparentemente nada mudou; mas, ao associar-se ao destino do “Deus que se humaniza”, também José se revelará como presença surpresa, marcada pelo cuidado, pelo silêncio e pela prontidão ao chamado de Deus.

É preciso "nos deixar surpreender por Deus" constantemente.Deus espera que nos deixemos “surpreender por seu amor, que acolhamos as suas surpresas”.É decisivo estar dispostos a abrir espaços em nossa história a novas pessoas e situações, novas vivências, novas experiências... Porque sempre há algo diferente e inesperado que pode nos enriquecer.

Continuaremos, na próxima quarta-feira, compartilhando com o Pe Adroaldo Palaoro, SJ., a contemplação de São José, frente as surpresas de Deus.

Medoro, irmão menor-padre pecador

Por Padre Medoro