Saudades

Quarta, 20 de Março de 2019.

Saudades

Perdi meus avós cedo demais. Havia uma bocado de doenças que ainda não possuíam vacinas, e eles nos deixaram no auge do conhecimento e sabedoria. Na plenitude de nos conceder tempo e amor. Já existiam as babás, mas eles faziam questão de levar balas e chocolates pra gente. Nos colocar, ainda meninos, ao lado do rádio para ouvir o Fluminense jogar. Quando o Flamengo nos roubava a bola, discretamente abaixava o som e nos contava uma historinha. Mas quando Denílson, o Rei Zulu, abria o compasso e a recuperava, se calava para Waldir Amaral assumir as rédeas de uma paixão que precisava ser repassada. E lá ia o Samarone puxar o contra-ataque.

Vô Padilha foi um herói da Marinha. Vó Memeca, a heroína da cozinha. Vô João trazia biscoitos da Indústria Américo Silva e Vó Glorinha, 20 horas engordurada junto ao fogão por dia, acabou tendo que dividi-lo com uma outra arrumada e perfumadinha. Fazia parte do game, havia o Salvaterra, a dona Maria de Araújo, Manoel dos Passos e poucas mulheres não registradas por lá nos concediam o prazer antes de pisar o altar. E tome gonorréia. E um medo mortal de contrair a Sífilis, outra que dava que nem chuchu ao pé da serra.

Neste contexto, havia um sentimento tão bonito que, infelizmente, o WhatsApp nos roubou. Ele se chamava saudades. Quando viajávamos de férias a Iguabinha, tinha fila à noite na telefônica central para falar com eles. E contar as novidades. E na volta não tinha preço o tamanho daquele abraço. Fora as resenhas, as histórias que varavam madrugadas.

Hoje, passo um zap para meu neto. Tudo bem Eduardo? E o Felipe, melhorou? Dê um beijo na Luísa. E eles moram duas quadras depois da minha. E de vez em quando vou às portas do N. Sra. de Fátima ver o Gabriel entrar para brincar com as massinhas. Falto com as balinhas porque preciso estudar também, caso contrário serei engolido, como jornalista, pela desinformação. E permito que meus filhos sejam Flamengo, Botafogo porque quero nadar um dia, caminhar no outro e no domingo ir de bicicleta à Paraíba do Sul pela estrada da Barrinha.

A pobre modernidade nos deu mais anos de vida para sermos menos avós. E se Marc Zukemberg inventar mais um aplicativo que absorva o tempo sem sair do lugar, alcançaremos a imperfeição: deixaremos nossos pais nos asilos, os filhos nas creches e vamos para a Avenida Beira Rio passear com o cachorro. Saudades? Já inventaram um Rivotril para amenizar a culpa que ficou no seu lugar.

Por José Roberto Lopes Padilha

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