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Se precisar, eu jogo

Sábado, 20 de Junho de 2020.

  Se precisar, eu jogo Nos meus oito anos jogando no Fluminense, se havia uma situação que me tirava do sério quando me tornei atleta profissional, era quando um companheiro de profissão, recém contratado, chegava às Laranjeiras declarando estar fora de forma. Que precisava de, pelo menos, duas semanas para adquiri-la. “Recuperar o ritmo de jogo”, então, era outro chavão que nos irritava. Afinal, éramos pagos para quê? Ficar vendo televisão ou cuidando da forma física, algo inerente à nossa profissão? Treinar e seu cuidar são cardápios do dia a dia, princípios básicos na vida de um atleta de alto rendimento. Esteja ele contratado ou não.
Daí o clube consentia, a imprensa engolia, e ele ficava dando umas voltinhas se poupando na pista e dando piques na mudança, ajudando a mulher na marcação dos novos locais e horários do colégio das crianças. Um gatinho em campo, um leão no Largo do Machado, Catete e até a praia de Botafogo à procura de um imóvel.
Porque ninguém perguntou a Dra. Roberta Pessoa, médica e clínico geral do nosso hospital se ela, e seus colegas de trabalho, estavam preparados para enfrentar tantos atendimentos que o covid-19 provocou. Se precisavam de um período de adaptação aos novos procedimentos de prevenção e medicação. Colocaram o jaleco, se protegeram e foram à luta com todos os riscos.
Igualmente, a Caixa Econômica Federal não exigiu da FERJ um período maior de adaptação aos boletins e decretos diários que desabaram sobre a cabeça dos seus funcionários. Que passaram, da noite para o dia, a receber e repassar informações que mal sabiam ao triplo das pessoas que atendiam. E que nem cadastradas foram em programa algum.
Daí os jornais estampam, no sábado (20), que jogadores do Fluminense e Botafogo ainda estão sem condições de jogo para o reinício do estadual. O que será que eles fizeram durante a noventena? Tiraram férias enquanto os professores estavam trabalhando on-line? Engordando enquanto prefeitos e secretários de saúde viravam suas noites nos gabinetes se equilibrando na corda bamba entre decretos fecha estado, abre federação e decida você mesmo, gestor! E cuidado com o número de óbitos porque outubro tem eleições...
Desentendidos, alinhados ou não, não faltaram um só dia aos seus compromissos juntos aos seus secretários de saúde, ordem pública, administração, fazenda...
Bem, se o Nenê alegar que não tem condições de jogar os 90 minutos, podem me chamar. Neste período de isolamento, caminhei à noitinha, andei de bicicleta ao ar livre, fiz Pilates, tudo com máscaras, álcool gel nas mãos e posso, seguramente, jogar um tempo na segunda com a 11. Fazendo o quarto homem do meio campo e ajudando na marcação.
Aos 68 anos, não sou mais um Nenê, muito menos um bebê, mas foi nas Laranjeiras que me ensinaram a ser disciplinado, cumprir meus horários, treinar e me cuidar bastante para defender suas cores. Estar sempre a postos, sem desculpas, mesmo diante de um adversário que mal sabíamos seu esquema tático. Uma vacina sequer para vencê-lo mesmo fora dos seus domínios.
Mudávamos o uniforme e íamos a campo. Sem desculpas. E babando, não temendo, para chegar o domingo do Fla x Flu.

Por José Roberto Lopes Padilha

Crédito da Foto: Reprodução