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Semana da Paixão por uma Semana Santa

Quarta, 24 de Março de 2021.

  Estamos celebrando a quinta e última semana da quaresma, o tempo litúrgico em que todos os cristãos são exortados à preparação da celebração da Páscoa do Senhor Jesus, mediante a oração, a penitência e a caridade. E essa “quarentena” inspirada nos quarenta dias de deserto de Jesus no início de sua missão (Cf. Mt 4,1-11).A proximidade da Semana Santa deve assim ser ocasião para intensificar essas três dimensões fundamentais da vida cristã que buscamos vivenciar, mais conscientemente e com paixão, desde a quarta-feira de cinzas. Daí Semana da Paixão: da parte de Jesus a corajosa entrega da própria vida por compaixão da humanidade sofredora e pecadora; e por parte dos cristãos acolhimento desse Deus apaixonado no diálogo orante que implica penitência em relação a tudo o que em nós ocupa o lugar de Deus mesmo e caridade como manifestação concreta do seu acolhimento em Jesus. E uma quaresma em seu ponto alto quando também em alta a pandemia do corona-vírus. Ao lado das medidas sanitárias por paixão da própria vida, a paixão pelo Deus da Vida e pela vida de todo o povo!
O isolamento preventivo da pandemia deveria ser uma oportunidade para um encontro orante mais profundo, apaixonado mesmo, com o Deus de Jesus Cristo. Somos obrigados a reconhecer que o amor a Deus sobre todas as coisas nem sempre se exprime numa atitude orante mais demorada, profunda e silenciosa. A cultura moderna se exprime lamentavelmente numa correria, ou para a sobrevivência ou para alimentar o consumismo. Não temos tempo para nós mesmos, para os que nos são mais próximos e, sobretudo, para Deus. As orações se resumem à recitação, muitas vezes distraídas, de algumas preces decoradas. A Bíblia, poucos a tem e desses, poucos fazem uso. É lamentável a pouca atenção à Palavra que Deus nos dirige. Essa Semana da Paixão é, assim, uma oportunidade única para reaprender a rezar, a ler/ouvir o que Deus-Pai tem a nos dizer. Determinar, concretamente, um tempo diário para o Deus apaixonado que nos quer ouvir, falar e amar. Quem sabe convidando os seus familiares para fazerem o mesmo. Em cada casa um tempo diário pessoal ou familiar para a oração.
Quando a oração, encontro pessoal com Deus, é vivida com paixão, nasce necessariamente a atitude penitencial. Essa é espontânea e ao mesmo tempo disciplinar. A penitência significa deixar de fazer o que gosta para deixar de fazer o que Deus não gosta. Reeducar a paixão! Perguntamo-nos: o que é que Deus não gosta? A resposta todos temos: Deus não tolera o pecado! O pecado é tudo aquilo que na vida pessoal ou coletiva ocupa o lugar de Deus e nos desumaniza. Tudo o que se torna absoluto para nós – ocupa, portanto, o lugar do Absoluto – nega a Deus, a nós mesmos e aos demais. A autossuficiência arrogante é o pecado da autodivinização! Vivemos, lamentavelmente, numa cultura cada vez mais fechada ao diálogo, ao encontro à abertura ao novo, ao diferente, de pessoas cada vez mais ensimesmadas. Ao lado do orgulho está a “fome” do ter mais e mais, sem se importar se falta ao irmão. É o egoísmo que leva a acumulação de bens em detrimento da grande maioria dos irmãos. Poucos com muito e muitos sem nada! E a presunção do poder, do mandar, do subjugar e consequentemente a negação do ser irmão. Política econômica excludente!
A penitência que brota da oração, por mais custosa que seja, é expressão da paixão por Deus e por sua própria humanidade. E, consequentemente, oração e penitência se desdobram na caridade, no amor aos irmãos e irmãs. Essa se manifesta, em primeiro lugar, nas atitudes interpessoais de acolhimento, escuta, diálogo, perdão, paciência, compreensão e doação. O tempo da pandemia como tem favorecido a recriação amorosa, caritativa, dentro de nossas casas, nas amizades que vinham sendo deixadas de lado na família maior, na vizinhança, com os colegas de trabalho e no relacionamento social. E, também dentro de nossas igrejas! A partir dessa crescente amorosidade brota, nasce a compaixão pelos desempregados, empobrecidos, excluídos, explorados e oprimidos. Igualmente pelos enfermos e demais desassistidos. A paixão pela vida com dignidade, feliz e fraterna para todos torna-se o sinal da autenticidade da fé e da Igreja para que o mundo creia (Cf. Jo 13,35). Daí, no Brasil, a Igreja propor no tempo quaresmal a Campanha da Fraternidade, que nesse ano inspira-se em São Paulo: “Cristo é a nossa paz: do que era dividido, fez uma unidade” (Ef 2,14). A caridade entre cristãos e religiosos de todas as igrejas e religiões.
A todos, uma Semana da Paixão por uma Semana Santa!

Medoro, irmão menor-padre pecador

Por Padre Medoro