Serviços de saúde sem acolhimento: momentos para elevação e crescimento interior

Sábado, 12 de Maio de 2018.

Não bastassem o desemprego, a falta de segurança pública, o descrédito na classe política, as incertezas sobre o próximo pleito eleitoral, a falta de comida e moradia para tantas famílias, a corrupção sistêmica, ainda temos de nos compadecer e sensibilizar com o sofrimento de milhões de brasileiros quando buscam por atendimentos de saúde no SUS. Comovemo-nos diariamente ao constatar que pessoas muito próximas experimentam infortúnios diários, vagando entre muitas unidades públicas de saúde, implorando para que suas demandas sejam solucionadas, muitas vezes, no limite da dor física e imenso esgotamento mental e emocional. Sofremos juntos, enquanto reunimos forças e clamamos por inspiração divina para que palavras de conforto nos façam conduzir, estimulando o emergir de um veio de autoestima e esperança renovadora nos que padecem por total desassistência.
Momentos críticos para todos que, por absoluta falta de opção, passam noites em intermináveis filas, sem comer, beber água, usar banheiro, descansar seus corpos esgotados, dolorosos, para tão-somente conseguir agendamento de consultas e/ou exames, sabe-se lá para quando. Piores sofrimentos passam idosos com doenças crônicas, dependentes de medicamentos e sequer os conseguem. Gestantes desesperançadas pelo fechamento injustificável da unidade que faziamacompanhamento pré-natal, sem rumo, ou saber o que fazer, onde recorrer para trazer à luz seus bebês. Como nossas instituições negligenciam a recepção das novas gerações, negando-lhescruelmente o direito de encarnar em harmonia. Impondo as suas mães dor, desespero, sofrimento. O que nos reserva o futuro, como retorno ao que estamos plantando?
É impossível não se envolver com o sofrimento de quem precisa de atendimentos de saúde e não consegue, por falta de dinheiro ou influência no meio político dominante. Parafraseando o Dalai Lama na obra “Uma Ética para o Novo Milênio”, acrescentaria que a compaixão é compreendida principalmente como empatia – nossa capacidade de participar e, de certa forma, partilhar do sofrimento alheio. Quando estimulamos nossa sensibilidade para o sofrimento dos outros através de uma abertura pessoal deliberada, acredita-se que sejamos capazes de ampliar gradualmente essa compaixão. Ela atinge um ponto em que somos tocados pelo sofrimento alheio, mesmo em sua forma mais sutil, que se desenvolve em nós uma irresistível noção de responsabilidade por todos os nossos semelhantes. Isto faz com que a pessoa compassiva se dedique inteiramente a ajudar os outros a superarem tanto o sofrimento quanto suas causas.
Na mesma perspectiva, o Capítulo XIII do Evangelho Segundo o Espiritismo, “Não saiba a vossa mão esquerda o que dê a vossa mão direita”, nos mostra que a piedade é a virtude que mais nos aproxima dos anjos; é a irmã da caridade, que nos conduz a Deus. Deixemos que nossos corações se enterneçam ante o espetáculo das misérias e dos sofrimentos dos nossos semelhantes. A piedade bem sentida é amor; essa abnegação em favor dos sofredores, é a verdade por excelência, a que toda a sua vida praticou o divino Messias e ensinou na sua doutrina tão santa e tão sublime. O sentimento mais apropriado a fazer que progridamos, domando em nós o egoísmo e o orgulho, aquele que dispõe nossa alma à humildade, à beneficência e ao amor do próximo, é a piedade. Piedade que nos comove até as entranhas à vista dos sofrimentos dos nossos irmãos, que nos impele a lhes estender a mão para socorrê-los e nos arranca lágrimas de simpatia. A piedade é o melancólico, mas celeste precursor da caridade, primeira das virtudes que a tem por irmã e cujos benefícios ela prepara e enobrece.
Concluindo, sirvo-me do pensar do Dalai Lama, quando ele assevera que o objetivo da prática espiritual e, consequentemente, da prática ética é transformar e aperfeiçoar o estado do coração e da mente, exercendo uma atitude fundamental.É assim que nos tornaremos pessoas melhores.

Por Dr. Willian Machado

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