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Sexo frágil? Que nada! (parte 2)

Sábado, 14 de Março de 2020.

  Sexo frágil? Que nada! (parte 2) CAPÍTULO II

*SANDRA
Meses depois, os pais foram buscá-la na casa da tia. A vida seria diferente dali em diante, a mãe prometeu. Ela, esperançosa, foi. A paz durou pouco e, em algumas semanas, voltou a ser molestada. Aos 15 anos, engravidou e teve um aborto espontâneo. Passou por curetagem e cauterização (o útero tinha muitas feridas por causa do abuso). Após o procedimento, foram meses de dor forte e aguda.
Nesse período, sua meta era ignorar. Bloqueava qualquer lembrança de sofrimento e, para ajudar na tarefa, buscava carinho nas relações mais improváveis. O prazer para não pensar. O prazer para compensar. Teve muitos homens. E engravidou de três deles, sempre na tentativa de sair de casa. Demorou, mas conseguiu.
Após relativo tempo de tranquilidade, as coisas voltaram a desandar. Sandra estava com 30 anos quando seu companheiro, com quem vivia há cinco anos, desempregado, decidiu se mudar do Rio de Janeiro. Ela teve que ficar, por causa dos filhos. Pouco depois perdeu o emprego. Segurou a barra por alguns meses, até começar a faltar o básico. Sem condição de pagar aluguel e se sustentar, a melhor alternativa era voltar para a casa dos pais.
Ao pensar nisso, a depressão veio forte. Numa tentativa desesperada de resolver os problemas, tentou suicídio cortando os pulsos. Foi socorrida e passou por um psiquiatra, que a encaminhou a uma psicóloga.

DAYENE
Não havia esperança. Ela sabia que a qualquer momento Fábio iria partir. Não teve dúvida em fazer o que achou que deveria: largou a faculdade, o trabalho e o resto de suas atividades para se dedicar a ele e ao tratamento. Não curtiu a beleza da gravidez. A vaidade era nula. Tudo que importava era que seu amor pudesse conhecer o filho. Aos oito meses de gravidez, por conta da radioterapia, ele perdeu a visão. Ela ficou arrasada, mas tinha que ser forte. E conseguiu. Ao pegar o filho no colo Fábio, muito debilitado, não conteve a emoção. Choraram juntos. Ele partiu em seus braços, quando Enzo – de olhos verdes e intensos como o dele – tinha dois meses.
Apesar de todo o suporte das famílias, Dayene caiu em depressão. Passou um ano inerte, consumida pela dor. Para piorar, perdeu a pensão do pai e o carro. Só o filho lhe trazia paz.
Um dia, olhando o pequeno Enzo dormir, Dayene lembrou-se de todos os planos que ela e Fábio traçaram juntos. De todos os sonhos a realizar. Porque – tinha certeza – onde estivesse, ele estava torcendo por sua reabilitação. Precisava reagir. E, decidida, iniciou a virada.

*ANDRESSA
Depois da última humilhação, Andressa decidiu dar a volta por cima. Foram meses de luta para perder peso – para ela, o único modo de ganhar o respeito da família. Após eliminar 40 quilos, sentiu-se bonita outra vez. Teve orgulho de si mesma. Mas a mágica, como esperava, não aconteceu. Porque ela mudou. Mas aqueles à sua volta continuavam iguais.
Emagrecer e ficar bonita não tinha mudado sua vida. Os abusos do marido e da sogra continuavam. Tinha vergonha das filhas, porque não conseguia reagir. E se elas achassem normal viver aquilo? Seria esse o conceito verdadeiro de família? Sacrificar a felicidade e a dignidade para manter o status conjugal? Não. Não estava certo. Ela tinha certeza. Precisava reagir.


É preciso força, equilíbrio e autoestima
De acordo com a psicóloga Cíndia Medeiros, é importante reconhecer os avanços na luta por igualdade feminina. Ela cita a psicóloga Ana Magalhães, no seu artigo “Ser Mulher no Século XXI”, que diz que esta “assume a maternidade como uma mais-valia e a educação dos filhos como privilégio. Trabalha para se sustentar e é totalmente independente do homem, contribuindo de forma igualitária para a economia familiar. Exige ser amada e respeitada”, descreve o artigo.
Mas Cíndia faz uma ressalva: “Este não é o cenário vivido por todas as mulheres. Um grande número ainda precisa superar o preconceito e a desconfiança social. Necessita provar que é capaz de fazer o que se propõe e de forma perfeita”, diz. Para ela existe, no contexto social, um modelo de perfil e de conduta feminino, que se modifica de acordo com a cultura local. Esse modelo pesa mais ou menos dependendo da educação recebida pela mulher, do local onde ela está inserida e, principalmente de seu equilíbrio emocional.
A pessoa deve estar muito equilibrada emocionalmente, ter seus valores e conceitos pessoais muito fortalecidos para não se enquadrar no papel esperado pela sociedade e não adoecer. “É preciso força, equilíbrio emocional e autoestima bem estruturada para passar por situações de preconceito sem se abalar. E ainda mais para conseguir se reerguer depois de um momento de crise”, completa.
Continua na próxima publicação


Por Daniele Barizon