Sobre a injusta prisão da enfermeira Simone

Sábado, 16 de Junho de 2018.

Análoga à passagem bíblica que narra a luta entre Davi e o Gigante Golias, a desproporcional força e dominação econômica de grupo empresarial do setor saúde atuante na região metropolitana do Rio de Janeiro, contando com a impiedosa, unilateral, difamadora e inconsequente cobertura da poderosa mídia global, consegue condenar à prisão temporária uma enfermeira que atuava em unidade neonatal de um hospital da rede privada. A cobertura midiática foi mesmo capaz de destruir a imagem da enfermeira Simone Anjo dos Santos, pois veiculava imagens gravadas no interior da unidade neonatal, mostrando a atuação de Simone em “suposta” tentativa de homicídio de recém-nascidos, quando, nada mais fazia que checar funcionamento dos equipamentos e materiais utilizados para atendimento dos bebês, em procedimento rotineiro de passagem de plantão. Fatos comprovados através de Audiência Pública instaurada na Comissão de Trabalho, Legislação Social e Trabalho da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro – ALERJ, contrapondo o amplamente divulgado pela mídia em defesa dos interesses do poder econômico do Grupo D´or. Ocasião em que se concederam oportunidades para se ouvir a todos, inclusive, depoentes que se dispuseram a apresentar versões contrárias ao que sustenta a acusação. A audiência transcorreu sem a presença física de representante do grupo empresarial, este, contudo, limitou-se a enviar documento com vaga justificativa da ausência devido a compromissos inadiáveis.
Simone, mulher, negra, enfermeira, 41 anos, 10 anos de carreira, foi presa em casa por policiais da Delegacia da Criança e do Adolescente Vítima (DCAV), dia 2 de maio do ano corrente, acusada por tentar matar quatro recém-nascidos na UTI Neonatal de um hospital particular, em Padre Miguel, Zona Oeste do Rio. Prisão injusta e profundamente devastadora para carreira dessa profissional cuidadosa, reconhecidamente envolvida no cuidado fraterno para com seus pacientes, onde quer que tenha exercido a nobre função de enfermeira, conforme reiterada e voluntariamente registrado pelos profissionais de enfermagem que depuseram a seu favor, por ocasião da Audiência supracitada. De questionável materialidade criminal, a acusação pautada em fantasiosos fatos ocorridos em janeiro (cerca de 90 dias antes da detenção), quando Simone já havia sido despedida e, como muitos outros enfermeiros, movido ação contra a dita empresa hospitalar, por questões diversas, e sua prisão provisória ou temporária não se justificava porque ela não representava ameaça as investigações, ainda assim, foi detida e teve sua imagem profissional destruída.
O que mais nos causa indignação, como enfermeiros e parte mais frágil das relações de trabalho no setor saúde, muito embora das maiores forças de trabalho do país, é que não vemos a mídia divulgar matérias sobre as péssimas condições de trabalho, tampouco, dos ambientes insalubres a que ficam expostos profissionais e pacientes nos hospitais e demais unidades de saúde do nosso país. Tanto menos atrativas para a mídia questionamentos quanto o autoritarismo, arrogância e ganância do empresariado de jaleco. Ou sobre os processos de compras de materiais, equipamentos e demais insumos de uso nos procedimentos de diagnóstico, intervenções, cuidado e tratamento nas nossas instituições de saúde, em cujos processos se prioriza a lógica de aquisição pelas ofertas de menor preço. Além da péssima qualidade do material, agrava-se o fato das instituições não oferecerem treinamentos para que a equipe de enfermagem adquira segurança, domínio cognitivo e psicomotor sobre sua utilização, como ocorreu no caso da enfermeira Simone. Ao invés disso, dedicam tempo em horário nobre televisivo e/ou páginas inteiras dos seus jornais para informar ao grande público dos riscos de desassistência que a população corre, se oficializadas 30 horas de carga horária semanal para a enfermagem. Omitem informar à sociedade sobre os baixos salários da categoria, da necessidade desses profissionais de assumir dupla jornada de trabalho para obter soma salarial suficiente para despesas básicas de manutenção dos seus núcleos familiares. Apenas se lembram da gente quando doentes, internados ou em casa, debilitados, indefesos, precisando dos nossos cuidados para se recuperar, reabilitar, retornar ao convívio social e de suas atividades laborativas. Lembranças relâmpagos, pois basta que se restabeleçam e recebam alta para manifestar agradecimentos fervorosos às demais categorias da área, mais especificamente aqueles que desfrutam de maior prestígio social e histórico reconhecimento profissional. Ingratidão que entendemos, porque cada qual em seu estado evolutivo do ponto de vista social, existencial ou espiritual.
Sem a intenção de nos fazer passar por batalhões de anjos de branco, até porque compomos força de trabalho com as mesmas limitações humanas e características existenciais das demais, apenas gostaríamos de sermos tratados com similar prestígio, respeito, reconhecimento e valorização da enfermagem desfruta nos países desenvolvidos. Onde a sociedade expressa imensa gratidão pelo trabalho e papel desempenhado pelos enfermeiros, quando as pessoas ficam doentes, mais frágeis e vulneráveis. Momentos de dependência para suas necessidades mais básicas que, sem nossa ajuda, intervenção e cuidados, correriam riscos de não sobreviver as adversidades da doença e da própria vida.
Como o que de fato nos leva a perseverar no exercício da mais bela das artes, o cuidado de enfermagem, indubitavelmente, remete ao dom de reconhecer a existência do Potencial Divino que habita em todos nós, seres humanos, não nos cabe esperar por colher méritos aparentemente supérfluos. O essencial é que sempre estejamos atentos para saudar o Arquétipo Sagrado presente em todos que se nos apresentam para nossos cuidados, aos quais sempre estaremos disponíveis para oferecer o que de mais nobre nossa dimensão interior disponha, ainda que negligenciados frutos das convenções humanas. Finalizando, faço minhas as reflexões do Dalai Lama, quando ele afirma que essa capacidade de amar e a necessidade de ser fraternos indicam que somos, de fato, amorosos por natureza. Ao demonstrar paz, tranquilidade e cuidados pelos outros, nos tornamos essenciais a recuperação de suas doenças, reiteramos que nossa natureza prefere a vida à morte, o crescimento à decadência, a construção à destruição.

Por Dr. Willian Machado

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