Tristeza, por favor vá embora

Quarta, 08 de Maio de 2019.

Tristeza, por favor vá embora

Dizem que apenas Deus, e o resultado da Megasena, e agora os 5x4 contra o Grêmio, de virada jogando fora de casa, podem decidir, quem nesta terra dos homens que amam o esporte, e perseguem a sorte, alcançarão a felicidade. Mas naquele domingo, 16 de Julho de 1950, ele estaria nas mãos de um simpático mineiro. Seu Chico, radialista da Rádio Pequeri, era quem decidiria se a sua gente explodiria de alegria. Ou sucumbiria, como todo o Brasil, na mais completa dor do Holocausto. Digo, no Maracanazaço.
No começo da década de 50 nem todos tinham rádio portátil em Pequeri, pequeno distrito de Bicas, Zona da Mata mineira, que só seria emancipado dois anos depois, e localizado a 300 km de Belo Horizonte. Os que tinham em suas casas, e ouviam a Voz do Brasil, Gerônimo, o herói do sertão, e Emilinha e Marlene competindo pelo trono na Rádio Nacional, permaneceram desligados pois todos foram convocados à praça principal escutar, pelas cornetas afixadas aos postes da praça principal, a final entre Brasil x Uruguai.
Era Seu Chico quem comandava o microfone e ele dava um verdadeiro espetáculo. Era a bola sair pela lateral que baixava o volume e jogava no ar um patrocínio. E ele incendiou a sua gente quando Friaça, logo aos dois minutos, abriu a contagem para o Brasil. Era o prenúncio de um título mundial mais do que merecido, berrava o Chico sem parar.
Nem quando o Uruguai empatou a partida, com Schiaffino, ele deixou a peteca cair. A festa esmorecer. E avisava, interrompendo seguidamente Waldir Amaral, da Rádio Globo, em cujas ondas sonora todas as emissoras pegavam carona: “O Empate é nosso minha gente. Brazil, zil, zil....” Os bares estavam cheios, a alegria estampada na face dos pequerienses e a Banda Musical 1ª de Maio estava a postos para puxar o carnaval. O êxtase, como em todo o país, era total.
E quando Gigghia, aos 34 minutos do segundo tempo desempatou, Chico foi mais rápido do que o porta-voz do apocalipse. E o botão desligou. E gritou, e seu veredito ecoou pelas cornetas afora: “Acabou! Somos campeões mundiais!” Se o árbitro sempre dava mais alguns minutos, pensou, porque não posso antecipar alguns e evitar uma tragédia coletiva? Devia pensar: Tristeza, por favor vá embora, nosa alma não chora, não está perto o nosso fim...
Dizem, os mais antigos moradores, que a festa vazou a madrugada enquanto todo o Brasil chorava de dor. E Pequeri, em Minas Gerais, foi, por 12 horas, a única cidade a comemorar o primeiro título mundial de futebol do Brasil. Quando acordaram e souberam do ocorrido, perdoaram o Chico. Que, por precaução, viajou logo cedo para um local desconhecido. Para todos eles, foi um sonho vivido, uma festa não interrompida, um pesadelo evitado, mesmo porque toda ressaca já é ruim de qualquer jeito. Nada que um Melhoral, à época, não resolvia.

Por José Roberto Lopes Padilha

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