Um caso de sabor capital

Terça, 08 de Outubro de 2019.

Um caso de sabor capital

Na verdade, não lhe tenho sido parceiro ultimamente. Deve ter meses que me afastei da sua companhia, e olha que a conheci ainda menino. E foi amor ao primeiro gole. Foi comigo ao Colégio Entre-Rios, às quadras e campos, brincadeiras, aniversários e casamentos. Excetuando meus pais e irmãos, poucos me acompanharam e se aproximaram tão de perto. E, tenho que reconhecer, você jamais mudou comigo. Trocou algumas vezes o visual, jamais a essência. Nunca o inigualável sabor borbulhante. Sempre se colocou ali, gelada e saborosa à nossa disposição em cada esquina.
Com a obsessão do corpo sarado, do aumento da obesidade infantil, minha parceira passou de companheira dos grandes momentos à vilã sem jamais deixar de ser doce. Ao condenarem o açúcar, o glúten, a gordurinha da picanha, os enlatados e a comida processada a incluíram na lista negra dos nutricionistas. Estes bravos profissionais nacionalistas que vieram a campo com a espinhosa missão de provar que o chá verde, o suco de pepino com beterraba são melhores que aquele seu saber viciante.
De que o açaí possa fazer-lhe frente e nos oferecer tamanha energia. Desde então, fui me afastando do seu conteúdo e aos nos livrarmos do FMI, quando o Lula deu aquele chega prá lá no Obama, pensei ter dado um grito de liberdade, definitivo ao imperialismo, mesmo quando aquele rastilho de sabor irresistível resistia impregnado dentro de mim.
Ontem, sábado, indo para casa neste calor insuportável, senti uma incontida saudade de sua companhia. Mesmo ausente, jamais lhe fui infiel, e tinha credito ao implorar seu frescor de volta. Quantas vezes me ofereceram sua rival, uma tal de Pepsi, e, mesmo na solidão dos shakes com colágeno, resisti a outros encantos. Suportei até a curiosidade de provar suas versões light e zero. E corri até a lanchonete Frog´s, do meu amigo Sapão, e ele teve a gentileza de ir ao fundo das minhas maiores recordações e retirar do freezer um raríssimo exemplar de 1,5 litros contidos de prazer numa inigualável garrafa de vidro.
E me saciei da sede de sua companhia que me percorreram a garganta e desceram estômago adentro debaixo de aplausos. E ainda pediram bis.
Desculpe-me, Coca-Cola, está tarde demais para declarar minha independência. Confesso: não há pizza neste mundo que aprecie sem a sua companhia, e como encarar o hambúrguer do Tim, a coxinha do Chocolate sem o teu inigualável borbulhar?
Se os portugueses colonizaram nossas padarias, os espanhóis nos levaram os craques, os holandeses mudaram parte do cromossomo nordestino, o que fazer se minha geração foi forjada no implacável "way of life" americano?
Tarde demais, companheiros, vou buscar um copo, colocar gelo e acrescentar felicidade. Queria muito que ela fosse guaraná, ser a base de soja, mas a ideologia engarrafada veio antes, cheia de gás e tomou conta para sempre da sede da gente.

Por José Roberto Lopes Padilha

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